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Com vida nova, Missy Franklin lamenta aposentadoria precoce: “Queria ser a maior da história, e isso não vai acontecer”

Apenas uma coisa chamava mais atenção do que o desempenho avassalador na piscina. O sorriso. Distribuído fartamente, atraía tantos olhares quanto os recordes e as medalhas que colecionava. E, por três anos, nenhum riso sobressaiu mais do que o dela.

Hoje, porém, a fenomenal atleta reconhece que aquela demonstração de simpatia escondia sentimentos muito menos ternos por trás da fachada de cordialidade.

Com apenas 23 anos, ela parou de sorrir.

Melissa Jeanette Franklin, mas conhecida como Missy Franklin, anunciou a aposentadoria em uma carta publicada em dezembro passado e chocou a comunidade aquática internacional. Ainda jovem e com seis medalhas olímpicas no currículo, das quais cinco de ouro, ela poderia aspirar a mais láureas não fossem duas lesões renitentes, uma no corpo e outra na mente.

A do corpo dizia respeito a duas cirurgias para tentar aplacar – sem sucesso – dores lancinantes nos ombros. As limitações físicas impostas pelo incômodo fizeram sua carreira declinar entre 2014 e 2018, depois de anos literalmente dourados em 2011, 2012 e 2013 – nos quais ela ganhou cinco medalhas nos Jogos Olímpicos de Londres, onde bateu o recorde mundial dos 200m costas, e seis ouros no Campeonato Mundial de Barcelona.

A da mente veio em decorrência de tanto sucesso. Sensação adolescente, despontou com cinco pódios no Mundial de Xangai, em 2011, com apenas 16 anos. Simpática, atenciosa, acabou por criar um patamar de carisma e expectativa tão alto que ficou difícil de sustentar ao longo dos anos.

– Uma das coisas que dificultaram minha situação foi as pessoas sempre esperarem que eu estivesse bem. Que Missy Franklin fosse a pessoa mais feliz o tempo todo, em todos os lugares. E, se eu não me apresentasse como a mais feliz ali, sentia que decepcionava as pessoas ao redor. Era um fardo demais para carregar. No fim, essa expectativa foi o que mais me machucou. Foi uma situação que exigiu terapia e apoio da família e amigos – disse, em entrevista ao GloboEsporte.com.

A norte-americana de 1,88m viu a carreira rapidamente decair e não conseguiu se recolocar entre as melhores do país. Até chegou a se classificar para o Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos de Kazan, em 2015, e os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016 – de onde saiu apenas com um ouro no revezamento 4x200m, como reserva. Em ambos, foi apenas um arremedo daquela nadadora estelar do ciclo olímpico anterior.

As decepções fizeram com que mergulhasse em uma profunda depressão – a exemplo do que já ocorreu com outros grandes nadadores, como o multicampeão Michael Phelps e a campeã olímpica Ruta Meilutyte. Missy se viu diagnosticada com a doença e teve de recorrer ao apoio da família e de colegas do esporte para tentar superar a situação.

Quando pensa no que passou, acredita que o baque a fez amadurecer. Hoje, dá palestras sobre como superou a crise pessoal e considera positivo que as pessoas acometidas dela se abram para falar a respeito.

– Para mim, tem sido importante ver tantos atletas encorajados a falar de saúde mental. Por muito tempo, nós entendemos que não era uma boa estratégia mostrar fraquezas. Embora por muitas vezes se sofresse por dentro, era obrigação exibir esse exterior de força e confiança, o que era mentira. Mas é crucial que no mundo de hoje sejamos mais autênticos. Se eu tivesse uma fã de 13 anos que me acompanhasse, me visse e pensasse que eu lidava com tudo da melhor maneira possível, sendo feliz o tempo todo e sem nenhum conflito interno, os próprios conflitos dela jamais pareceriam válidos ou justos. E isso só torna a situação pior para todos – afirmou a americana.

– Compartilhar os períodos mais difíceis que temos, em vez de escondê-los, pode ajudar outras pessoas. Acredito firmemente nisso. Eu passei a falar muito sobre a depressão que tive, e o que vejo de mais positivo é que consigo tocar os outros. E eu nunca conseguiria agir assim se não tivesse eu mesma passado pela depressão. Tornar esse assunto público, como muitos colegas de natação têm feito, ajudará positivamente a sociedade – emendou.
A reflexão sobre deixar o esporte profissional veio após nem sequer se qualificar para a equipe nacional dos Estados Unidos, em seletiva realizada em junho de 2018 e que definiu as delegações para o Campeonato Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul, e os Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, que ocorrerão entre julho e agosto deste ano. Missy achou que, longe da melhor forma e com nova lesão nos dois ombros, talvez fosse hora de anunciar o adeus das piscinas. Quando criou coragem, disse ter sentido, na sequência, “alívio”, “paz” e “decepção”. Ela explicou:

– Alívio porque soube que teria de passar por mais uma cirurgia se quisesse continuar a nadar. Cirurgias nos dois ombros, com pelo menos seis meses de recuperação e apenas 50% de chance de melhora. Eu estava tão cansada de sentir dor o tempo todo que não aguentei. Me aposentar e deixar essa dor para trás me trouxe paz. Mas, assim que veio a paz, também veio um pouco de frustração. Eu sempre senti que havia muito mais em mim do que apenas duas participações em Jogos Olímpicos. Eu sempre quis ser a maior nadadora da história. E isso não vai acontecer – disse.

A avaliação de Missy é que apenas raspou na superfície da excelência que poderia ter atingido. Ela se imaginava em pelo menos outros três megaeventos e sonhava em melhorar ainda mais seu recorde mundial nos 200m costas.

– Eu esperava nadar por muito mais tempo. Quando consegui vaga pela primeira vez na equipe olímpica americana, em 2012, achava que teria ao menos três. Foi muito decepcionante, para ser sincera. Eu atingi meus objetivos, conquistei medalhas com as quais sonhei, tive grandes experiências e conheci pessoas incríveis, e por isso sou grata, mas havia muito mais que queria ganhar no esporte. Mas hoje sinto que está tudo bem. Nem sempre se pode conquistar tudo o que se deseja – comentou.

Quase seis meses depois de pendurar touca e óculos, Missy tem voltado a sorrir.

Recentemente, foi apontada embaixadora da Fundação Laureus, que patrocina projetos sociais voltados ao esporte e promove a maior premiação do esporte mundial, e pretende se manter ligada à natação competitiva.

– Eu quero continuar envolvida com o esporte para devolver um pouco do que conquistei. Sinto muita falta das competições, porque não há sensação igual àquilo. Só não sinto falta da dor que me perseguia todos os dias. Eu realmente sinto saudades da natação, mas também me sinto grata por tudo o que consegui. Quero ir à Olimpíada de Tóquio de alguma maneira, nem que seja para assistir – afirmou.
Além da transição de carreira, ela tem cuidado de outros aspectos de sua vida que ficaram em segundo plano no passado em detrimento da natação. Ficou noiva de um antigo namorado, Hayes Johnson,

– Todo atleta fica nervoso em relação a essa transição de abandonar o esporte, mas felizmente eu tive muitas oportunidades graças à natação. Laureus é uma delas, entre outras. E muitas outras têm aparecido. Eu nunca pude me engajar de verdade nelas enquanto competia, porque nadar era minha prioridade e eu tinha treinos, viagens, compromissos, campeonatos e meu foco estava todo ali. Agora que não faço mais isso, posso priorizar outras atividades das quais gosto muito. Eu tenho adorado essa nova vida.

Fonte: Globo esporte


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