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Como um país que tecnicamente não existe está na final masculina por equipes do Mundial de 2019

A bandeira é de Taipé Chinês. Se algum atleta for campeão, o hino que tocará será o do Comitê Olímpico de Taipé Chinês. Mas, se você perguntar a qualquer um dos atletas desta delegação que país ele representa, a resposta será Taiwan. Imbróglios políticos à parte, Taipé, esta nação que tecnicamente não existe, deu um salto de qualidade impressionante no último ciclo olímpico e pegou a oitava e última vaga da final por equipes do masculino do Mundial de Ginástica de Stuttgart.

Para minimizar a confusão com as nomenclaturas nesta matéria, deixemos Taipé para o COI. Vamos acompanhar os atletas e nos referirmos à equipe sempre como Taiwan.

No último Mundial, em Doha, Taiwan terminou a competição masculina por equipes em 17º lugar. Nesta edição esperava-se uma evolução devido ao ótimo resultado no Campeonato Asiático, um terceiro lugar, atrás apenas de China e Japão. Mas o grupo foi muito além, e aumentou em mais de 12 pontos a pontuação obtida no Catar. O equivalente a uma série a mais.

Stuttgart 2019 – 8º lugar na classificatória – 250,093 pontos
Doha 2018 – 17º lugar geral – 238,195 pontos
O segredo dessa evolução passa por Sadao Hamada. Técnico da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, por mais de 30 anos, o japonês assumiu Taipé para o ciclo de Tóquio 2020 cravando que, com quatro anos de trabalho, seria possível brigar por uma vaga olímpica. A receita não tem nada mirabolante. Apenas muito, muito trabalho.

O primeiro talento desta geração a despontar foi Lee Chih Kai. Mas o time ganhou um nível muito mais alto e uniforme nesta temporada. Mesmo tendo só uma mudança na escalação em relação a Doha, o grupo viu a pontuação final disparar graças a uma evolução exponencial na execução. As notas de dificuldade permanecem muito semelhantes às das edições anteriores.

– Eu sabia que os meus meninos não tinham uma gama de muitos elementos. Eu não tinha tempo para ensinar novos elementos com muita dificuldade, então minha estratégia foi que, o que quer que eles fizessem, mesmo os movimentos de nível muito básico, que fizessem limpos. Eu calculei que que 250 pontos nos levariam as Olimpíadas. Calculei tudo e começamos com o básico. Aí eles começaram a melhorar, e hoje foi o dia da colheita – disse Hamada.

A última vez que Taiwan esteve nos Jogos como equipe foi justamente em Tóquio, em 1964. Naquela ocasião, em disputa única, a equipe terminou em 17º e penúltimo lugar. Em Mundiais o país tem duas medalhas. A primeira, de prata, foi conquistada por Feng Chih Chang no salto em 1993. A segunda foi o bronze de Lee Chih Kai, no cavalo com alças, no ano passado.

Em Stuttgart, Lee Chih Kai está novamente na final do aparelho, desta vez com a terceira melhor nota. O compatriota Shiao Yu-Jan também está na disputa de medalhas, em sexto na classificação. Melhor ainda do que eles está Tang Chia-Hung, que lidera na barra fixa.

COI ignora campanha para mudança de nome

Taiwan tem como nome oficial República da China (não confunda com República Popular da China, a superpotência econômica e olímpica) e é um estado com reconhecimento internacional limitado. Até o início dos anos 1970 o país competia em Jogos Olímpicos sob o nome Taiwan, mas uma decisão da ONU de reconhecer o governo de Pequim como o único legítimo da China provocou o isolamento geopolítico de Taipé, a capital de Taiwan, que persiste até hoje.

Depois deste posicionamento da ONU, a China pressionou o Comitê Olímpico Internacional. E o COI atendeu, impedindo que Taiwan competisse com este nome nos Jogos de Montreal 1976. O Comitê Olímpico de Taiwan decidiu boicotar tanto a edição canadense do evento quanto a que viria quatro anos depois, Moscou 1980. Como o cenário não se alterou, a solução foi ceder.

Assim o COI publicou a chamada Resolução de Nagoya, que forçava oficialmente Taiwan a competir sob o nome Taipé Chinês, proibindo que o Comitê nacional usasse a bandeira ou o hino do país. Ao longo das décadas seguintes foram feitos vários pedidos de reconsideração da medida.

O último deles foi feito ao COI após ONGs do país promoverem um “Referendo de Renomeação para Tóquio 2020”. O COI ignorou com uma justificativa curiosa. Disse, através de comunicado oficial, que não poderia considerar a questão pois a mesma não tinha sido levantada pelo Comitê Olímpico de Taipé Chinês.

Alheios às burocracias e disputas geopolíticas, Lee Chih Kai e companhia competem nesta quarta-feira na Arena de Stuttgart. Com uma nota de dificuldade baixa e uma já alta de execução, vão se esforçar para evoluir na pequena margem de melhora disponível. Se não conseguirem, não tem problema. O objetivo maior já foi alcançado.

– Nós vamos para a Olimpíada! – disse Jsu Ping Chien.

Fonte: Globo esporte


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