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Flip 2018: mesa mostra gravações de Hilda Hilst tentando falar com mortos, e cineasta diz que poeta está ‘vivíssima’

Gravações da escritora Hilda Hilst (1930-2004) tentando conversar com mortos foram o tema da primeira nesa desta quinta-feira (26) na 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

O curioso encontro, chamado “Performance sonora”, reuniu a cineasta brasileira Gabriela Greeb, para quem Hilda está “vivíssima”, e o designer de som português Vasco Pimental, que trabalham juntos no filme “Hilda Hilst pede contato”.

A obra, que teve trechos mostrados durante o debate e estreia em agosto, parte justamente de fitas que a autora homenageada da Flip 2018 gravou na década de 1970.

Inspiradada pelo sueco Friedrich Jurgenson e seu experimento da transcomunicação instrumental, a escritora tentava alcançar as tais “vozes do além” de gente como Franz Kafka, Sigmund Freud e Clarice Lispector. O pai, a mãe e a empregada também eram “contatados”.

O primeiro a falar (para um auditório com mais de 50 lugares vazios, de um total de 500) foi o simpático e carismático Vasco Pimentel, que definiu o longa como “um ato xamânico”.

Para começo de conversa, ele foi logo avisando que Hilda fez “a coisa mais simples e estúpida do mundo”. Isso, no sentido de que era fácil, não sem propósito. “O dispositivo – qualquer um pode fazer em casa!” Ok, mas como assim?

“Ela tinha uma mesa, um rádio com um chiado, e o rádio estava a cantar, depois tinha um microfone para ela. Mas esse microfone apanhava o som do rádio e a voz dela, e [o som disso tudo] ia para um gravador de rolo.”

Hilda Hilst, então, pedia: “Falem comigo”. Deixava o gravador ligado e ia dormir. No dia seguinte, ouvia o que estava lá. “Era só isso”, descreveu Pimentel. “O sistema não tem nada de transcendental, quântico, nada disso. Ela chama e depois vai ouvir, só isso.”
Para o designer de som, “a singularidade vem em ser a alma dela, a vontade dela, a poeta que ela é, a escutadora que ela é”.

“Há uma frase do Ezra Pound, ele diz os poetas são as antenas da nossa espécie, captam a humanidade, o momento, o ‘antes’, o ‘muito depois’, o ‘muito por cima’, captam antes e envolvem na alquimia da palavra. Eles ouviam os mortos, porque os vivos eram uma porcaria.”

Durante a mesa, Pimentel mostrou o registro de um chiado em que, em certo momento, daria para ouvir supostamente algo como “Hilda”. Neste momento, Gabriela Greeb, a parceira de debate, completou: “Não é que ela ouvia frases inteiras [dos mortos]. Ela só queria comprovações”.

Quando a mediadora da conversa, a jornalista Mariana Filgueiras, perguntou por que Hilda desistiu, em 1979, de tentar falar com os mortos, a cinesta respondeu:

“Porque ela foi tentando e tentando… O engraçado é que ela começou a brigar com os mortos. Vocês estão me fazendo de idiota, vocês não falam alto, estou ficando ‘broxa’ com essa experiência. Então, ela parou por falta de resposta”.
‘Hilda está vivíssima’
Foi em 2008 que Gabriela Greeb foi convidada para fazer um filme a partir das fitas de Hilda Hilst. Em sua participação na Flip, a diretora admitiu que não conhecia a obra da escritora.

Hoje, a cineasta acredita: “Ela prova que os mortos vivem, de uma certa maneira. Porque, 14 anos depois [da morte], ela está vivíssima”.
Sobre a experiência de lidar com coisas meio sobrenaturais, Gabriela falou, rindo: “Fantasma eu pedi pra não ver, que eu tenho medo. Mas [se acontecesse] coincidência, tudo bem”.

Um exemplo de coincidência foi quando, ao filmar uma cena que tinha um cavalo vivo, acabou encontrando espalhados pelo terreno esqueletos de vários cavalos.

Ainda sobre Hilda Hilst, resumiu: “Ela parece um quadro do Hopper. Eu chorava às vezes, porque é muita solidão. Mas acho que é uma solidão necessária às vezes, porque todo artista é solitário na sua criação. O filme retrata essa solidão. Tudo que ela quer é o encontro. Mas o lugar de fala dela é o da solidão”.

Veja a programação restante da Flip 2018:

Quinta-feira (26 de julho)
12h – Mesa 3 (Barco com Asas), com Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta (em vídeo) – Esse diálogo inusitado reúne, por vídeo, um grande nome da poesia de Portugal do último meio século e, em Paraty, duas poetas brasileiras influenciadas pela lírica portuguesa que têm pontos em comum com Hilda Hilst.
15h30 – Mesa 4 (Encontro com livros notáveis), com Christopher de Hamel – A religião, a magia, a luxúria e a leitura na época medieval se apresentam nas páginas do “Evangelho de Santo Agostinho”, do “Livro de Kells” e de “Carmina Burana”, comentadas pelo maior especialista do mundo nesses manuscritos.
17h30 – Mesa 5 (Amada vida), com Djamila Ribeiro e Selva Almada – Uma ficcionista argentina que escreveu sobre histórias reais de feminicídio e uma feminista negra à frente de uma coleção de livros conversam sobre como fazer da literatura um modo de resistir à violência.
20h – Mesa 6 (Animal Agonizante), com Gustavo Pacheco e Sérgio Sant’anna – Um grande mestre da literatura brasileira que abordou o desejo, a solidão e a morte relembra sua trajetória ao lado de um leitor seu e autor estreante elogiado pela crítica portuguesa com histórias de humanos e outros primatas.
Sexta-feira (27 de julho)
10h – Mesa 7 (Poeta na torre de capim), com Lígia Ferreira e Ricardo Domeneck – A falta de leitores e o silêncio da crítica, como reclamava Hilda Hilst: para esse debate, encontram-se a grande especialista no poeta negro Luiz Gama e um poeta e editor atento a nomes ainda fora do cânone, como Hilda Machado, que morreu inédita em livro.
12h – Mesa 8 (Minha Casa), com Fabio Pusteria e Igiaba Scego – Fazer literatura tendo uma língua comum – o italiano – e diferentes aportes, fronteiras e paisagens geográficas e literárias: nesse diálogo, reúnem-se o poeta de um país poliglota, que é tradutor do português, e uma romancista filha de imigrantes da Somália, que escreveu sobre Caetano Veloso.
15h30 – Mesa 9 (Memórias de porco-espinho), com Alain Mabanckou – O absurdo e o riso, Beckett,culturas africanas, escrita criativa e crítica da razão negra: a trajetória e o pensamento de um poeta e romancista franco-congolês premiado se revelam nessa conversa com dois entrevistadores.
17h30 – Mesa 10 (Interdito), com André Aciman e Leila Slimani – O exercício da liberdade de escrever e a escolha de temas tabu ou proibidos – a exemplo do homoerotismo, da sexualidade feminina e da religião —são as questões tratadas nesse diálogo entre dois romancistas, um judeu americano de origem egípcia e uma francesa de origem marroquina.
20h – Mesa 11 (A Santa e a Serpente), com Eliane Robert Moraes e Iara Jamra – A obra de Hilda Hilst em poesia e prosa é vista tanto em sua dimensão corpórea quanto mística por uma ensaísta que atua na fronteira entre a literatura e a filosofia, enquanto são feitas leituras por uma atriz que encarnou a sua personagem mais famosa – Lori Lamby.
Sábado (28 de julho)
10h – Mesa 12 (Som e Fúria), com Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel – A escuta e a criação de universos sonoros: para esse diálogo, encontram-se uma das pioneiras da música de vanguarda no país, hoje dedicada à ópera multimídia, e um sound designer português – os dois conhecidos pelo rigor e pelo preciosismo.
12h – Mesa 13 (O poder na alcova), com Simon Sebag Montefiore – Historiador britânico best-seller que publicou biografias de Stálin, dos Romanov e, agora, de Catarina, a Grande, conta, nessa conversa com dois entrevistadores, como faz para retratar figuras centrais da política em seus pormenores mais íntimos.
15h30 – Mesa 14 (Obscena, de tão lúcida), com Juliano Garcia Pessanha – Uma romancista portuguesa nascida em Moçambique que tratou de temas como o racismo e a gordofobia se encontra com um narrador de gênero híbrido e filosófico para discutir a escrita de si, os diários e as memórias, o corpo e o desnudamento.
17h30 – Mesa 15 (Atravessar o sol), com Colson Whitehead e Geovani Martins – O americano vencedor do Pulitzer com um romance histórico sobre escravizados que construíram sua rota de fuga se encontra com um estreante que, da favela do Vidigal, inventa com liberdade seu jeito de narrar e usar as palavras.
20h – Mesa 16 (No par do incomum), com Liudmila Petruchévskaia – Um dos grandes nomes da literatura russa moderna, comparada a Gogol e Poe por seus contos de horror e fantasia que não dispensam o teor político, relembra sua trajetória proibida por décadas no regime stalinista, hoje aclamada de Moscou a Nova York.
Domingo (29 de julho)
10h – Mesa Zé Kleber (De Malassombros), com Franklin Carvalho e Thereza Maia – Um narrador do sertão baiano que abordou a mitologia da morte em seu premiado romance de estreia se encontra com uma folclorista que recolheu histórias orais de Paraty, em um diálogo sobre o território e seus encantados.
12h – Mesa 17 (Sessão de encerramento ‘O escritor seus múltiplos’) – com Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro – Uma atriz, um compositor e um fotógrafo que fizeram obras baseadas em Hilda Hilst relembram os encontros com a autora, o processo de criação e as marcas que a experiência deixou em suas trajetórias.
15h30 – Mesa 18 (Livro de cabeceira) – convidados leem trechos de livros marcantes.
Flip 2018
Quando: de 25 a 29 de julho
Onde: Paraty (RJ)
Ingressos: R$ 55 para cada mesa (com meia-entrada)
Onde comprar: durante a Flip, a venda acontece só em Paraty, na bilheteria oficial localizada na Praça da Matriz, no Centro Histórico

Fonte: G1


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