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Ex-Flamengo, José Neto assume seleção e quer resgatar tradição do basquete feminino: “Processo”

Multicampeão pelo Flamengo, com passagens por diversos outros clubes e até pela seleção brasileira masculina, José Neto terá pela frente mais um grande desafio em sua vitoriosa carreira. Aos 48 anos, ele foi anunciado oficialmente pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB) nesta terça-feira como novo treinador da seleção brasileira feminina (conforme antecipado pelo GloboEsporte.com na sexta). De cara, no fim de julho e início de agosto, ele vai comandar o time que representará o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru. Mas, para ele, sem minimizar a importância dessa competição, trata-se de projeto muito mais ambicioso.

– Foi uma surpresa esse interesse deles (CBB). Pensando, conversando com meus agentes e com as pessoas mais próximas, vimos como um desafio. Pensei como poderia contribuir, e o desafio sempre me motivou. Minha carreira toda foi pautada nisso. Desde a época do Paulistano, depois quando fui para Joinville a mesma coisa, e no Flamengo, onde criamos uma mentalidade e uma estrutura. Criamos uma maneira de sucesso de trabalhar. Chegou a hora de tentar colocar um pouco dessa experiência no basquete feminino, que é um cenário onde precisamos somar esforços para que possa voltar a ser o que era – comentou, em entrevista ao GloboEsporte.com.

A seleção feminina tem muitas conquistas em sua história, as principais delas nos anos 90 e 2000. Em 1994, as meninas foram campeãs mundiais de basquete, superando o bronze de 1971. A prata olímpica veio em Atlanta 1996 e o bronze, em Sydney 2000.

Foram três ouros em Pans (1967, 1971 e 1991), quatro pratas (1959, 1963, 1987 e 2007) e quatro bronzes (1955, 1983, 2003 e 2011). Além disso, são 29 medalha sul-americanas, sendo 26 ouros, seis pratas e dois bronzes. Ou seja, tradição não falta. E José Neto quer resgatar isso:

– Esse ano completam 25 anos do título mundial e fica esse desejo. Nós temos uma referência. A ideia é que a gente possa resgatar isso e criar uma nova maneira de chegar ao êxito também. A gente quer implementar e construir essa ideia. Não é chegar e colocar tudo do jeito do José Neto. É um processo. A gente quer colher um fruto, mas ainda estamos na fase de plantar a semente. Precisa ter essa paciência, criar uma metodologia, colocar em prática. Não é do dia para a noite. Não é eu assumindo hoje que garante uma medalha nas próximas competições – falou.

Quando José Neto retornou do Japão, onde treinava o Levanga Hokkaido, ele foi procurado pela CBB para assumir a seleção feminina. Como já tinha algumas situações engatilhadas, como um período na Espanha para ver a Copa do Rei e ficar com a seleção espanhola nos treinos da última janela da Fiba, além de uns dias com o Real Madrid, ele analisou a questão durante algum tempo. Depois de algumas conversas, o treinador se entendeu com a Confederação, mas deixou claro que é preciso implementar um “processo”:

– O desafio que aceitei foi deixando bem claro isso, eu não aceitei dizendo que tem uma mágica que vai transformar o basquete feminino num basquete vencedor. Acredito no processo de trabalho. Você precisa plantar a semente certa, cuidar, não deixar morrer e colher lá na frente. É algo muito inicial, precisamos que todos que fazem o basquete feminino hoje possam contribuir para esse processo. É uma fase de diagnóstico, avaliação para saber onde vamos agir – relatou.

Apesar de a história ser de tradição, mais recentemente os resultados não são tão positivos assim. O Brasil fez sua sétima Olimpíada na Rio 2016 e, a exemplo de 2008 e 2012, foi eliminado ainda na primeira fase. Desta vez, foi sem conquistar nenhuma vitória.

Além disso, o selecionado nacional não participou do Campeonato Mundial em 2018 por ter terminado a Copa América Feminina de 2017 em quarto lugar, sendo a segunda vez na história que o Brasil ficou de fora do Mundial Feminino de Basquete. A ideia de Neto é “regar essa plantinha” e, quem sabe, culminar com a disputa dos Jogos Olímpicos em Tóquio 2020.

– É impossível você liderar a seleção do país e não pensar em Olimpíada. É o momento máximo do esporte, já vivi duas. É um marco. É importante saber que mudou a forma de classificação para a Olimpíada, está muito mais difícil. Antigamente, jogávamos o Pré-Olímpico das Américas e classificávamos por ali. Agora tem um Pré-Olímpico Mundial. Para poder classificar entre as 12 melhores, ficou muito difícil, mas é um desejo grande. Mas é claro que não termina aí. A gente tem um processo. Pensando em Tóquio, seria incompatível querer deixar no mesmo nível de seleções que trabalham há pelo menos 4 anos ou mais. Mas o Brasil vai fazer o máximo.

A seleção brasileira disputará em breve a FIBA Womens AmeriCup – 2019 (antiga Copa América), que distribuirá sete vagas – além de uma já pertencendo aos Estados Unidos – ao Pré-Olímpico das Américas, que será jogado em novembro, e qualificará os quatro primeiros colocados ao Pré-Olímpico Mundial. São competições cruciais de olho nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Antes disso, contudo, tem um campeonato “no susto”, o Pan de Lima, no fim de julho e início de agosto.

– É um compromisso que o Brasil tem. Pensamos e estruturamos para que possamos dar o melhor possível. O quanto o trabalho vai influenciar nesse resultado é difícil precisar. A gente está numa fase de implementar uma nova metodologia e vai depender de como as jogadoras vão absorver e colocar em prática. A ideia é sempre dar o melhor. Não vamos para o Pan pensando em preparar o time para outra competição. Vamos dar o melhor possível. Estamos tentando entender a melhor equipe que podemos apresentar, temos que ver a disponibilidade das jogadoras, mas, com certeza, vamos pensar em dar o melhor.

Desde que começou as conversas com a CBB, Neto conta que começou a observar mais o basquete feminino brasileiro:

– Já tem um tempo que estou observando. Fui acompanhando algumas coisas que eu já tinha encaminhado antes de um processo de trabalho que a gente tinha, mas voltei um pouco para iniciar esse processo de análise. Claro que não é muito a fundo, isso vai começar agora, mas já vi muitos jogos, falei com algumas pessoas. É parte de um processo uma renovação, mas há um compromisso muito grande de colocar o que tem de melhor. Não podemos desprezar o que tem de melhor. E, claro, fomentar e evoluir essa nova geração que pode vir. Há meninas brasileiras se destacando fora do Brasil, queremos ter esse conhecimento e que elas tenham o conhecimento de que estamos de olho nisso.

Sobre a formação de sua comissão técnica, Neto conta que o que colocou na mesa nas conversas com a CBB foi a importância de ter à disposição profissionais de sua confiança e montar sua equipe, algo que sempre teve como método nos lugares onde passou, criar um “grupo de trabalho” com pessoas de excelência.

– Se você quer trabalhar com excelência, tem que ter esse somatório, um técnico, um preparador físico etc, todos de excelência. Acredito muito nesse processo. A primeira parte disso tudo é formatar essa equipe. Chamo de grupo de trabalho. Essa é a primeira coisa que eu falo: antes de falar de salário, falo da maneira como vou trabalhar, são condições prioritárias para mim. Se eu tiver essa condição, posso falar em resultado e coisas pela frente. Essa foi a primeira coisa que eu questionei. Perguntei se podia montar minha equipe de trabalho, é o princípio das coisas. Já conversamos bastante entre nós, acho que a Confederação tem um timing em relação ao COB, mas isso aí já está bem encaminhado e em breve vai estar tudo acertado – concluiu.

A carreira de José Neto
José Alves dos Santos Neto, de 48 anos (16 de março de 1971), natural de Itapetininga (SP), graduado em Educação Física (EF) pela Escola de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo), iniciou carreira como treinador em 1992. De 2001 a 2007 comandou a equipe adulta do CA Paulistano-SP, conquistando o título da Copa Sul (2003) e abrindo caminha para que o clube atingisse o atual status.

Em seguida, dirigiu a Ulbra/São Bernardo do Campo-SP (2007 e 2008), chegando ao vice-campeonato Paulista; Ulbra Rio Claro-SP (2008 e 2009), Palmeiras (2010 e 2011), Joinville(2011 e 2012), sagrando-se campeão catarinense, e o Flamengo (2012 a 2018), agremiação pela qual conquistou títulos extremamente importantes: Liga Nacional de Basquete (2012/2013, 2013/2014, 2014/2015 e 2015/2016), Copa Intercontinental (2014), Liga das Américas (2014), e Campeonato Carioca (2012, 2013, 2014, 2015 e 2016).

Seu último clube foi o Levanga Hokkaido, do Japão (2018/2019).

Em 2016, foi o ganhador do “Troféu Ary Vidal”, como o melhor treinador da Liga Nacional. Pela seleção brasileira masculina, de 2004 a 2016, José Neto participou de competições importantes com as equipes adulta e de base, seja como técnico, assistente técnico ou mesmo como supervisor:

– Jogos Olímpicos (como auxiliar): 2012 (Londres) e 2016 (Rio de Janeiro)
– Campeonatos Mundiais Adultos (como auxiliar): 2006 (Japão), 2010 (Turquia) e 2014 (Espanha)
– Campeonatos Mundiais Sub-19 (como técnico): 2007 (Sérvia) e 2011 (Letônia)
– Jogos Pan-americanos (como auxiliar): 2011 (Guadalajara)
– Campeonato Sul-americano (como técnico): 2014 (Isla Margarita), garantindo classificação para o Pan-americano de Toronto, que o Brasil conquistou a medalha de ouro

Fonte: Globo esporte


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