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“Ilha da Luta” no Caribe teve brasileiro apelidado de Romário brilhando em cenário paradisíaco

Tradicional evento dos anos 90 organizado pelo empresário brasileiro Frederico Lapenda, o World Vale-Tudo Championship (WVC) teve em seus ringues alguns dos nomes mais importantes do esporte daquela época, como Marco Ruas, Mark Kerr, Pedro Rizzo, Oleg Taktarov e Igor Vovchanchyn.

Depois de fazer a edição de estreia do seu evento no Japão e de rodar o Brasil com algumas etapas seguintes, Lapenda decidiu levá-lo em 1999 para um cenário paradisíaco: a ilha de Aruba, no Caribe.

– Eu e meu sócio, Bas Boon, que é holandês, tivemos a ideia de transformar Aruba na “Fight Island” (Ilha da Luta), e chegamos a usar essa frase para a promoção do evento. Ela tem uma ligação com a Holanda, é central e tem casinos. Era uma situação perfeita. – explicou Lapenda em entrevista exclusiva ao Combate.com.

O octógono foi montado, literalmente, a beira da praia, no pátio do bar de um hotel.

Lutadores de diversas nacionalidades foram convocados, entre eles três brasileiros representantes da luta-livre: Antônio “Bigu”, Hugo Duarte e a jovem promessa Alexandre Cacareco, que tinha feito apenas uma luta até então, e estava escalado para participar de um torneio com oito lutadores, onde deveria vencer três combates na mesma noite para se sagrar campeão.

E ninguém teve tarefa fácil.

Bigú enfrentou o holandês Willy Peters, que segurou na grade algumas vezes, além de atacar o olho e morder o brasileiro. Ao árbitro, o faixa-preta de jiu-jítsu Leonardo Castello Branco, que foi contratado para mediar os combates, não restou outra alternativa a não ser desclassificar o indisciplinado lutador.

– Naquela época era a regra do vale tudo, não tinhas as regras que você vê hoje no MMA. A gente fez uma reunião de arbitragem pra defini-las. Não tinha uma comissão ou entidade que regulasse as regras, como acontece hoje em dia, então cada evento tinha suas regras. Era vale-tudo normal mesmo, só não valia dedo no olho e atacar a região genital, o resto valia praticamente tudo. Inclusive tive um problema sério com isso por conta de dedo no olho. Dois atletas foram desclassificados por causa disso. Uma coisa é você encostar o dedo no olho do cara, outra coisa é você enfiar o dedo. Não tem como não desclassificar numa situação dessa. Você pode ver na fita. – explicou Castello Branco.

Além de Bigú, outro brasileiro teve problemas com ataques ilegais de seu oponente. Após colocar o russo Mikhail Avetesyan no solo e iniciar um ground and pound, Hugo Duarte teve seus olhos atacados pelo adversário duas vezes, e mais uma desclassificação acabou acontecendo. Revoltado, o russo chutou as pernas de Hugo enquanto o brasileiro era atendido pelos médicos.

Comentarista do Combate, o jornalista Marcelo Alonso esteve presente na cobertura deste evento e contou como foi este momento tenso naquela noite.

– O Hugo toma um dedo no olho e rola uma confusão tipo Khabib Nurmagomedov e Conor McGregor, só que em Aruba. O Hugo estava por cima no ground and pound, o cara deu uma dedada no olho dele e o Castello advertiu. O cara foi e acertou de novo. Você pode ver na foto que acertou mesmo. O Castello desclassificou o cara, que ficou revoltado e deu um chute no Hugo no chão. O Hugo ficou bravo, e falou pro Lapenda que queria continuar essa luta com portas fechadas. Mais tarde, quando o Hugo estava descendo do octógono depois da luta do Cacareco, ele encontrou o russo e os caras saíram na porrada na areia, a cinco metros do mar. Eles iam fazer a luta valendo no evento seguinte, mas acabou não rolando.

– O cara meteu o dedo dentro do olho do Hugo de forma bem acintosa, não tinha como não desclassificar. Eu até chamei o médico pra ver com relação a ele voltar ou não, mas não tinha como não desclassificar. Ele foi bem acintoso em colocar o dedo no olho. Foi uma situação difícil, o dono do evento ficou chateado com a desclassificação, tive que conversar com ele junto com o Lapenda. E ele entendeu que a regra deveria ser seguida daquela maneira – explicou Castello.

Se as lutas de Bigú e Hugo Duarte tiveram finais conturbados, o mesmo não se pode dizer de Alexandre Cacareco. Após vencer dois adversários, o brasileiro teria pela frente um dos favoritos daquela noite, o americano Heath Herring, que anos depois brilharia nos ringues do Pride.

Cacareco não se intimidou diante da vantagem de 25kg de seu adversário e impôs seu jogo de chão. Enquanto os turistas americanos apoiavam Herring com gritos de “USA”, a torcida local resolveu apoiar o brasileiro, apelidado de “Romário” pelo público de Aruba.

Até mesmo o compositor Ary Barroso foi lembrado pelos torcedores de Cacareco, como conta Alonso.

– A torcida lá era holandesa, o Romário tinha se destacado na Copa de 94 e os caras começaram a chamar o Cacareco de Romário, pois o Cacareco era pequeno e lembraram dele. Tinham muitos turistas americanos lá, mas os locais começaram a torcer por ele, cantando trechos da música “Aquarela do Brasil”, do Ary Barroso, e gritando “Romário”.

As quedas aplicadas pelo brasileiro durante os 35 minutos de luta foram decisivas para a sua vitória, conquistando o título do torneio e o status de grande estrela daquela noite.

Afastado do MMA desde 2011, Lapenda atualmente trabalha com produção de cinema nos EUA, e revelou que, dois anos depois daquele evento de Aruba, uma outra paradisíaca ilha esteve em seus planos para sediar uma etapa do WVC, mas acabou não acontecendo.

– Tentei fazer uma Ilha da Luta em Angra dos Reis em 2001. Aluguei a Ilha Capítulo para recepcionar o empresário russo Andrey Menichenko e lá tive essa ideia. Vislumbrei o pay-per-view direto da ilha. Fiz uma pesquisa de ilhas que estavam para venda e ofereci a alguns amigos investidores, mas infelizmente acabou não acontecendo.

O WVC desembarcou em Aruba novamente três meses depois, teve mais quatro etapas no Brasil e sua última edição foi em 2002, na Jamaica.

Fonte: Globo esporte


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