Há exatos 35 anos, no dia 8 de julho de 1984, a Fórmula 1 viveu um de seus domingos mais quentes. Literalmente. A única prova realizada na cidade americana de Dallas foi marcada por um calor dos mais absurdos já vistos na história da categoria. Como se não bastasse, o asfalto do circuito de rua derreteu com os quase 45 graus de temperatura, e a prova quase não aconteceu.
Na pista, apesar de tudo, houve um show de ultrapassagens, rodadas, acidentes e abandonos. De forma surpreendente, a vitória ficou com Keke Rosberg. Foi um histórico resultado, que marcou o primeiro triunfo da parceria Williams-Honda.
A prova em Dallas, no auge do verão do Texas, esteve ameaçada em vários momentos. A pista demorou a ser montada, e o asfalto foi colocado mais tarde do que deveria. Resultado: não houve tempo ideal para a cura, e, conforme os treinos iam acontecendo, o piso ia se desfazendo.
Enquanto isso, nos bastidores, o clima era de festa. A equipe Alfa Romeo fez uma ação promocional no rancho onde era gravada a série “Dallas”, muito popular em todo o mundo, inclusive no Brasil. Reginaldo Leme pegou uma carona e se vestiu de caubói texano para gravar o Sinal Verde.
Em meio ao caos, Nigel Mansell e Elio de Angelis deram à Lotus uma inédita dobradinha na primeira fila em seis anos. Derek Warwick (Renault), René Arnoux (Ferrari), Niki Lauda (McLaren) e Ayrton Senna (Toleman) completaram os seis primeiros.
Senna, por sinal, protagonizou uma discussão áspera com o chefe da Toleman, Peter Gethin, nos treinos de sábado. Diante das condições cada vez piores do asfalto, Gethin não queria permitir a saída de Ayrton, que, no grito, entrou no carro e foi para a pista. Na volta, ouviu e falou imprecações ao inglês, mas o sexto lugar no grid era a melhor posição de largada do brasileiro até então, então ficou o dito pelo não dito.
Também no sábado, uma prova de Can-Am teve mantida a sua realização. É claro que aqueles carrões cheios de potência e pneus enormes acabaram com o que tinha restado de asfalto. Com isso, operários entraram na pista na madrugada/manhã de domingo para colocar cimento de secagem rápida nos trechos mais críticos da pista.
O treino de aquecimento – se é que se fazia necessário aquecer alguma coisa – estava marcado para as 7h45 para que a corrida começasse às 11h. Tudo para fugir do calor. No entanto, quando os pilotos chegaram à pista, foram proibidos de treinar porque os coitados dos operários ainda estavam trabalhando na pista.
Evidentemente houve mais ameaças por parte dos pilotos, que não queriam correr. Como sempre, o presidente da Associação das Equipes (Foca), Bernie Ecclestone, cerrou os dentes e exigiu que a prova fosse realizada. No fim das contas, ficou combinado que se depois de dez voltas, a pista ficasse impraticável, Niki Lauda ergueria o braço pedindo o encerramento da corrida.
Às 11 em ponto, os pilotos estavam lá no grid para a largada, e a corrida transcorreu normalmente. Ou quase… Na volta de apresentação, Arnoux ficou parado e teve de largar no fim do pelotão. Mansell manteve a liderança, seguido por De Angelis, Warwick e Senna. No entanto, o brasileiro foi a primeira vítima dos muros de Dallas e tocou num deles na segunda volta. Ayrton rodou e teve de esperar todos passarem para voltar ao traçado.
Warwick foi o destaque no começo. Ele passou De Angelis na volta 4 e partiu para cima de Mansell. No duelo de ingleses, Derek ficou pelo caminho na 11ª volta. A essa altura, Lauda tinha ultrapassado De Angelis para ficar em segundo. Porém, o italiano rapidamente restabeleceu a dobradinha da Lotus. Depois do abandono de Warwick, Keke Rosberg surgiu do nada andando muito rápido e já era o quarto. Em nove voltas, o finlandês passou por Lauda e De Angelis.
Outro que vinha crescendo era Alain Prost, que também superou Lauda e De Angelis para ficar em terceiro. A essa altura, os dois já colavam em Mansell, que tinha problemas de pneus. Na volta 36, o inglês tocou numa parede e foi aos boxes para trocar pneus. Isso deixou a briga pela liderança entre Rosberg e Prost, enquanto o terceiro colocado era René Arnoux numa recuperação fantástica. Com o melhor carro da temporada, o francês assumiu a liderança na 49ª volta.
Porém, ah porém, Dallas era um caso diferente, e até Prost errou, beliscou uma parede e abandonou. Além dele e do já citado Derek Warwick, também bateram Niki Lauda (McLaren), Michele Alboreto (Ferrari), Nelson Piquet (Brabham), Patrick Tambay (Renault), Johnny Cecotto (Toleman), Riccardo Patrese (Alfa Romeo), Andrea de Cesaris (Ligier), Stefan Bellof (Tyrrell), Eddie Cheever (Alfa Romeo) e François Hesnault (Ligier). Ou seja, meio grid bateu e abandonou.
Nas voltas finais, apenas oito sobreviventes restavam, e Rosberg conduziu seu carro com tranquilidade a uma vitória sensacional quando ninguém esperava, depois de duas horas de prova. Arnoux conquistou um ótimo segundo lugar, a 22 segundos de Rosberg, e De Angelis, numa corrida sem ser notado, fechou o pódio. Jacques Laffite levou sua Williams ao quarto lugar, e Piercarlo Ghinzani marcou os primeiros pontos da Osella.
Mas o gran finale da epopeia de Dallas foi Nigel Mansell empurrando sua Lotus-Renault – uns dizem que acabou a gasolina, mas o resultado oficial aponta quebra de câmbio – nos metros finais de prova para simplesmente desmaiar de calor. As imagens do pálido Mansell e do vencedor Rosberg com chapéu de caubói foram as últimas da Fórmula 1 em Dallas. Jamais haveria outra corrida lá.
Fonte: Globo esporte
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