Um bom domingo a todos e uma semana abençoada! Vi ontem, nos meios de comunicação, pessoas e autoridades brasileiras numa verdadeira euforia
sobre a assinatura do acordo entre o Bloco Europeu e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como membros principais, além de Venezuela, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador,
Guiana, Peru e Suriname como países associados).
Embora entenda que os blocos econômicos no mundo moderno são importantes, sobre tudo para as economias mais fortes, não compartilho desse otimismo, pois “gato escaldado tem medode água fria”.
Explico:
1. Ainda vai demorar um bom tempo para que as discussões resultem em operações
concretas que tragam benefícios, e, além disso, a França nunca deixará de proteger oseu setor primário.
2. O próprio bloco do Mercosul precisa acertar suas diferenças. O Brasil, maior PIB do bloco, e a Argentina, segundo maior PIB, têm que ser mais pragmáticos e lembrar que os interesses do povo e do país estão acima dos ideológicos. A Venezuela, hoje, maiscausa problemas do que ajuda (quer ficar só com o filé). O Paraguai, enquanto o Brasil fechar os olhos para suas práticas nocivas (contrabando, tráfico de drogas, evasão dedivisas), não criará problemas. O Uruguai, como sempre, segue na sua posição discreta.
Os países associados já nominados só têm a ganhar! Diante desse quadro, faço uma indagação:Por que, de repente, a União Europeia correu para fechar esse acordo que já vinha searrastando por duas décadas?
Respondo: Foram as ações agressivas da China aqui na América Latina que representaram uma ameaça legítima às economias dos países do bloco e ao fluxo de produtos europeus para a
América do Sul (porto no Peru, aquisição da Mineração Taboca, com uma reserva exponencial de minerais estratégicos, e o planejamento de uma nova rota de navegação).
Finalmente, tenho uma grande preocupação de que a Amazônia não tenha sido a “moeda de troca” utilizada nesse acordo. Temos o exemplo de Roraima: para renegociar a dívida externa brasileira, o governo americano impôs ao Brasil a criação de uma reserva que representa uma grande parte do território daquele estado, engessando, inclusive, os benefícios para as populações tradicionais.
Espero que o Brasil não tenha entregue “de bandeja” a Amazônia à sanha europeia de preservála, sem oferecer nada em troca pelos nossos bilionários recursos naturais.
Na reunião do G-20, o que mais se via eram expressões do tipo:
• “Preservar a Amazônia”;
• “O Brasil tem que cumprir as metas do Acordo de Paris”;
• “A Amazônia precisa ser protegida”E o governo brasileiro sempre respondendo: “Sim, senhor”.
A União Europeia, os EUA e a China são os maiores poluidores do planeta, mas não querem pagar a conta dessa mitigação! Os europeus dizimaram seu meio ambiente e ainda saquearam osrecursos naturais de outros países (Américas, África e Ásia), fazendo isso sem qualquer pudor
ambiental.
Agora, querem ditar regras aos países que também desejam explorar seus recursos naturais. No caso do Amazonas, queremos e temos o direito de explorar nossos recursos naturais. Nossa diferença em relação aos europeus é que queremos fazê-lo em harmonia com a natureza, com
regras claras de respeito ao meio ambiente.
É verdade que na Noruega, Alemanha, EUA, Suíça, Japão, Reino Unido e aqui no Brasil a Petrobras tem aportado recursos ao Fundo Amazônia, que são administrados pelo governo
federal através do BNDES.
Só que esses recursos são distribuídos para todos os biomas, e, para o estado mais preservado e que tem a maior biodiversidade do planeta, só chegam migalhas.
Para se ter uma ideia do “tamanho” das doações, a Noruega, este ano, vai doar R$ 127 milhões e a Alemanha, R$ 88 milhões. Mas, o total de recursos até agora, para o Fundo Amazônia, soma R$ 643 milhões e somente 11% desse valor é repassado aos projetos. Imaginem!
É o que chamo de migalhas. Quanto desse valor vai ser repassado para o nosso estado? Não sei! Historicamente, sempre ficamos com a menor parte.
Não queremos esmolas. Queremos o direito de explorar sustentavelmente bilhões e bilhões de dólares em recursos naturais que Deus colocou no Amazonas. Queira Deus que esse acordo assinado ontem não seja mais uma camisa de força contra os nossos direitos!
Vou pagar para ver!
Manaus, 08 de dezembro de 2024.
Professor José Melo
Ex-Governador do Estado do Amazona
There is no ads to display, Please add some