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Formiga: o discreto fenômeno de peso imensurável

Miraildes Maciel Mota cresceu correndo descalça pelos campos de barro do Subúrbio Ferroviário de Salvador, nos anos 80. Era a única menina entre os cinco filhos de Dona Celeste e carregava nos pés o inesperado sonho de fazer história no futebol. Parecia impossível. Mas ela conseguiu. A caminhada terminou se entrelaçando com a história do esporte. E a capacidade de se multiplicar dentro de campo – observada pela torcida – rendeu o apelido que virou nome: Formiga.

Formiga odiava ser chamada assim, mas se acostumou com o passar do tempo. Terminou gostando. Era a síntese do estilo discreto e eficiente, em um trabalho incessante – que também se refletia na própria personalidade da jogadora.

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A postura introspectiva e a função dentro de campo podem ter influenciado para a falta de premiações individuais na carreira de Miraildes. Mas nada se tornou maior que a representatividade da eterna camisa 8.

Uma mulher negra, nordestina e lésbica, que virou símbolo da história.

Ninguém no mundo jogou mais Copas que ela, ninguém esteve em mais Olimpíadas, e não houve geração do futebol feminino brasileiro sem a presença dela. Foram 26 anos de estrada com a seleção – antes da aposentadoria pela equipe, em 2021. Construiu uma vida dedicada às mulheres, e como voz ativa na busca por reconhecimento no esporte.

Formiga estreou em uma época em que não havia espaço para o futebol feminino. A estética – na visão de dirigentes e até mesmo jornalistas – era apontada como a melhor forma de chamar a atenção para a modalidade. Mas eles nunca se importaram com a falta de uniformes para as mulheres, por exemplo.

Formiga, mesmo no mais alto patamar do futebol brasileiro, precisou esperar as camisas largas que sobravam do time masculino. Os diretores, por sua vez, insistiam em um padrão de beleza e feminilidade para elas: era deixar o cabelo crescer ou “alisar” os crespos e cacheados. Formiga, na contramão do discurso, raspou a cabeça. Era o protesto em busca do respeito a que tinha direito.

Em 2016 – após uma década de luta -, Formiga cansou. Despediu-se da seleção em Manaus, aos 38 anos, porque não conseguia mais cobrar avanços sem enxergar a evolução que esperava.

“Não dê a esperança e depois tire. Tem que continuar. Só assim a gente vai conseguir o que estão cobrando do futebol feminino.”
— disse ao “Planeta SporTV”, em 2017, após a demissão da técnica Emily Lima.
Formiga pela seleção brasileira — Foto: Rener Pinheiro/MoWA Press

Só aceitou voltar – para a Copa América de 2018 – porque sentiu que a missão não estava completa. É uma mulher que cansava, mas nunca para de correr. E mesmo naquela época, era um ponto de equilíbrio de um conjunto desequilibrado.

Conquistou o título, quebrou recordes de participações e despediu-se de vez da seleção na Copa de 2019, na França. Foram sete Copas do Mundo (de 1995 a 2019), seis Olimpíadas (de 1996 a 2016), três ouros em Pan-Americanos, um vice-campeonato mundial e duas pratas em Jogos Olímpicos.

Jogadoras do São Paulo comemoram o gol de Formiga — Foto: Gabriela Montesano/saopaulofc

Formiga representou – e ainda hoje representa – milhares de meninas e mulheres que não estavam acostumadas a serem vistas no esporte. Influiu para que o mundo passasse a respeitar o futebol feminino brasileiro, muito antes do que o próprio país.

Agora, ela sabe: nenhuma menina precisará sofrer o que Miraildes sofreu. Porque Formiga correu para que o futebol feminino pudesse caminhar. Tornou-se o discreto fenômeno de peso imensurável.

Fonte: Globo Esporte


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