‘Menino, como você entrou aí?’, foi o que se perguntou o subtenente Marcelo Cavadas, do Corpo de Bombeiros, ao avistar um cachorro que havia ficado preso em um vão de aproximadamente 20 centímetros entre duas paredes, em Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo.
Cavadas foi um dos dois profissionais dos Bombeiros que atenderam à ocorrência de resgate ao animal, na última segunda-feira (17). Eles conseguiram retirar o cão do local e a ação, que durou cerca de 40 minutos, foi registrada em imagens (assista no vídeo acima).
O subtenente conta que recebeu o chamado na segunda-feira pela manhã e que, chegando lá, o primeiro procedimento foi calcular o local onde o cachorro estava, o que eles fizeram utilizando uma corda como referência. Depois disso fariam a perfuração no lugar correto para que o animal fosse retirado.
“O cachorro estava entre o muro de um condomínio e o muro de um terreno. Aí tivemos que mensurar o lugar onde ele estava com uma corda. O muro tinha um rufo, que eles colocaram para não chover dentro daquele buraco, então ficou difícil olhar por cima. Tivemos que levantar o rufo e eu, com uma lanterna, falava para meu auxiliar jogar uma corda, até aproximar do cão, então ele levava a corda para frente, para trás. Quando chegou em cima do cão, eu falei: aí é o local. Então nós começamos a perfurar a parede”, explicou.
“Ele estava mais abaixo do local onde nós quebramos, então quebramos mais uns tijolos debaixo para facilitar a retirada dele. Retirei primeiro pela cabeça, depois peguei o corpo dele. Foi com a mão mesmo. Eu fui pegando ele pelo colo”.
Logo após o resgate, o cachorro se mostrou muito cansado devido ao tempo em que havia permanecido preso. Segundo o subtenente dos Bombeiros, o animal ainda apresentava alguns ferimentos, mas não é possível saber se ele já estava comos machucados ou se foram ocasionados pelas tentativas de sair dali.
“Ele estava debilitado. Quando consegui olhar com a lanterna, ele estava em pé, e era muito estreito. Então ele não conseguia se deitar. Quando o cão cansa, geralmente ele deita, mas ele não conseguiu. E imagine o tempo em que ele estava ali? Não sei se desde a noite anterior, ou se duas noites. Já sem se alimentar, sem tomar água. Ele não aguentou”.
“Então, quando o tirei, ele só caiu no chão ali, e eu fiquei movimentando os membros dele para ativar a circulação e ele se recuperar. Mas ele demorou muito. Tanto que eu saí de lá, deixei-o sob cuidados de moradores, que deram água e ração, e ele continuou deitado. Teve uma hora em que ele ficou bravo e não deixava ninguém colocar a mão, mas, no começo, o animal estava muito cansado”.
Cavadas conta que os moradores não souberam informar se o cachorro tinha dono e disseram que ele ficava na rua do condomínio. O subtenente, que está acostumado a trabalhar no resgate a animais em situação de risco, diz que não é possível saber o que fez o cão a entrar naquele local, mas explicou os motivos que normalmente colocam os animais em situações delicadas como essa.
“Eles geralmente fogem de fogos de artifício, fogem de um animal maior. O gato, por exemplo, quando sobe em árvore, normalmente está fugindo de cachorro. O real motivo a gente não sabe. Se eles pudessem nos falar por que eles fazem isso, nós iríamos tentar protegê-los de uma forma melhor, mas não tem jeito. O instinto animal a gente nunca sabe por que eles se comportam assim.
Resgate ao cão não foi uma novidade para o subtenente dos Bombeiros
O subtenente contou ao G1 que está na profissão há 26 anos, primeiramente tendo trabalhado no policiamento ostensivo, e que ingressou no Corpo de Bombeiros em 2006.
A ocorrência da última segunda-feira não foi uma novidade para ele. Pelo contrário. Cavadas está mais do que habituado a lidar com situações desse tipo e já resgatou muitos animais, nas mais diferentes ocasiões. Algumas dessas ocorrências, inclusive, ele compartilha em suas redes sociais.
“Como eu corro na viatura de salvamento, toda ocorrência com animal cai sempre no meu colo. Todo tipo de animal que você pode imaginar. Até falei que, quando tiver um golfinho enroscado, podem me chamar. Animal, inseto. Tudo. Já tirei um boi de um poço. Tem ocorrência de coruja, aves. Tem aves que se enroscam em árvores, fios de pipa, e tem que tirar. Um tempo atrás tirei uma coruja em Suzano que estava enroscada em um fio. Tirei um gato de uma árvore que estava muito alto. Esse tipo de ocorrência de cão em parede não é a primeira vez. Já peguei até piores, como um cão que entrou em uma parede em L. São muitas ocorrências. Com animal peçonhento também tem bastante”.
O amor por ajudar o próximo, sejam pessoas ou animais, certamente é uma das coisas que movem trabalhos como o de Marcelo, que também tem cachorro. Porém, apesar da forte ligação que tem com animais, ele conta que procura ser frio e usar a experiência de anos que carrega para ser bem-sucedido na tarefa de resgatar quem precisa.
“No momento do trabalho tem que usar de frieza, conhecimento técnico, treinamento e experiência, que conta bastante. Não é a primeira ocorrência que pego desse tipo e também não vai ser a última. Quando acaba, para nós o pensamento é de que acabou a ocorrência, de que foi um ótimo trabalho feito, mas eu não procuro me envolver emocionalmente. Quando faço socorro de vítima, de animal, procuro não me envolver para não ficar com essa carga da ocorrência. Eu me desligo totalmente”.
Fonte: G1
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