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Morto com uma flechada de índio isolado, sertanista queria um Brasil preservado

Num vídeo feito recentemente na floresta de Rondônia, um integrante de uma expedição pergunta ao sertanista Rieli Franciscato qual o Brasil que ele queria para o futuro. Exausto após subir um morro, o paranaense de 56 anos – destes, 30 de serviços prestados à proteção de índios isolados na Amazônia –, hesita por um momento, diz que ainda está sem ar. Indígenas que o acompanham começam a rir. Ele olha, então, para a imensidão da mata abaixo e comenta: “O Brasil que quero é que isso aqui seja preservado não só para os índios, mas para toda população do entorno que é beneficiada pela reserva”.

O discurso pacificador de Rieli diante da câmera de Roberto de Barros Ossak, amigo e morador do município Seringueiras, tinha bases concretas. Na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau onde foi realizada a gravação, nascem rios que abastecem de água potável boa parte da população do Estado. Rieli estava ali para vistoriar a situação das aldeias isoladas que enfrentam uma ofensiva de grileiros e todos os tipos de invasores. Foi um índio isolado e acuado que, na tarde desta quarta-feira, 9, acertou o sertanista com uma flecha num sítio na divisa da reserva, no município de Seringueiras. Rieli não resistiu ao ferimento no tórax e morreu horas depois.Como passou a fazer com muita frequência nos últimos meses, Rieli tentava impedir um conflito entre índios isolados e não-indígenas da região. Também estava preocupado com a possibilidade da pandemia da covid-19 atingir o grupo. Os isolados podem não suportar uma gripe de vírus comum. Em abril, a liderança indígena Ari Uru-eu-wau-wau, que denunciava extração ilegal de madeiras, foi assassinado com golpes na cabeça, em Jauru, também em Rondônia.

Reli coordenava a Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau, uma das unidades de proteção a aldeias de índios sem contato com não-indígenas na Amazônia. A precariedade da Fundação Nacional do Índio (Funai) era visível na ação. O sertanista não tinha assistentes – a onda de desligamentos no órgão só aumenta. Após receber uma notícia da presença de isolados no sítio, Rieli foi acompanhado apenas por dois policiais militares e um amigo. Os isolados reagiram com flechadas à chegada da missão indigenista. Os policiais e o amigo do sertanista conseguiram se proteger atrás da viatura. Atingido no tórax, Rieli foi levado ainda com vida para o hospital da cidade.

Um dos policiais contou em áudio o que ocorreu: “O Rieli começou a subir um morrinho assim, aí a gente só escutou o barulho da flecha, pegou no peito dele. Aí ele deu um grito, ‘oi’… arrancou a flecha, e voltou para trás correndo. Ele conseguiu correr de 50 a 60 metros e já caiu praticamente morto”.

Num áudio divulgado pelo portal Amazônia Real, Rieli comentou com a amiga Ivaneide Cardozo ter recebido a informação da presença de isolados do Rio Cautário, um curso da reserva indígena, no sítio de Seringueiras. “Acabei de receber informação que os índios apareceram na (linha) 6 e vou ver essa situação. Não vou ter nem gente para colocar lá. O Clayton (servidor da Funai) está acamado. Possivelmente esteja com covid”, afirmou Rieli na conversa.

A eterna política do Estado de não reconhecer populações isoladas, o sucateamento atual da Funai e o discurso do governo de Jair Bolsonaro de incentivo ao desmatamento tornaram os sertanistas que ainda restam no País uma nova classe de acossados da floresta. São profissionais que tentam evitar o avanço da grilagem em mais de cem áreas da Amazônia Legal onde há registros de índios sem contato com não-indígenas.

Companheiro de décadas de Rieli, o sertanista Sydney Possuelo desabafou. “A circunstância da sua morte demonstra o descaso e a irresponsabilidade do governo Bolsonaro em relação às questões indígenas que envolvem os índios e os funcionários das Frentes de Proteção Etno-Ambientais, que são a vanguarda dos trabalhos na selva”, afirmou em nota. “A culpa é da incompetência dos que hoje orbitam em volta do presidente da Funai e do coordenador de Índios Isolados”, ressaltou. “Rieli pediu auxílio à polícia porque não tinha funcionários para acompanhá-lo.”

Beto Marubo, membro da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, no Amazonas, é um integrante da nova geração de ativistas da floresta que aprendeu com Rieli atuar na defesa de comunidades sem-contato com não-indígenas. “Rieli foi um grande amigo e um grande professor”, disse. “Tudo o que sei de índios isolados foi ele quem me ensinou”, completou. “Trabalhamos por um bom tempo no Javari e na Madeirinha, em Mato Grosso.”

Em nota, a Funai informou que acompanha o caso da morte do sertanista. “Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos”, ressaltou o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, Ricardo Lopes Dias. “A fundação lamenta profundamente a perda e manifesta solidariedade aos familiares e colegas do servidor. As equipes da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato e das Frentes de Proteção Etnoambiental se despedem de Rieli com carinho, respeito e admiração.” O delegado federal Marcelo Augusto Xavier, presidente da Funai, não tinha se pronunciado até o início desta manhã.

Fonte: Msn


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