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‘Não temos um passe de mágica para a solução da Cracolândia, é perseverança permanente’, diz Rodrigo Garcia

O governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), disse nesta quinta-feira (12) que a gestão estadual não tem solução mágica para a Cracolândia na capital paulista.

Um dia depois da operação policial que esvaziou a Praça Princesa Isabel, no Centro de São Paulo, que estava ocupada por dependentes químicos e traficantes, os usuários de drogas seguem caminhando pelas ruas da região central.

Segundo Garcia, a resolução da situação desses dependentes químicos passa por “uma perseverança permanente de políticas públicas” na área da Saúde.

“A Cracolândia é um problema de polícia e de Saúde. Na polícia nós estamos agindo com a prisão de traficantes. Foram mais de 100 prisões já realizadas, inclusive na operação dessa madrugada. Na questão da Saúde, nós temos apoiado a Prefeitura de SP na abertura de vagas em comunidade terapêuticas, na ação concreta da abordagem social que está sendo feita naquele local”, declarou.

Sobre a dispersão dos dependentes químicos pelas ruas do Centro de São Paulo após a ação policial na Praça Princesa Isabel na madrugada desta quarta (11), Rodrigo Garcia afirmou que a ação facilita a abordagem social e de saúde dos usuários de drogas.

“É natural que toda ação tenha uma reação. E nós vamos continuar trabalhando pra prender o traficante de drogas e tratar quem precisa de tratamento”, completou.

‘Cracolândia acabou’
As declarações de Rodrigo Garcia sobre a Cracolândia nesta quinta (12) contrastam com a postura do ex-governador João Doria (PSDB), que ocupava o Palácio das Bandeirantes antes dele.

Em 2017, quando ainda era prefeito da capital paulista, Doria havia dito que a Cracolândia havia acabado em São Paulo. A promessa tinha sido feita logo após uma megaoperação das polícias Civil e Militar, com mais de 900 agentes.

“A Cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais. Nem a Prefeitura permitirá, nem o governo do Estado. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa. A partir de hoje, isso é passado. Vamos colocar câmeras de monitoramento”, disse Doria naquela época.

Entretanto, os usuários voltaram a frequentar o quadrilátero entre as rua Helvétia e Alameda Dino Bueno, onde se concentrava grande parte do chamado “fluxo” de usuários de crack, poucas semanas depois da operação de 2017.

A mudança de endereço da Cracolândia para a Praça Princesa Isabel, localizada entre as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias, aconteceu apenas após uma suposta ordem do crime organizado, segundo afirmação de um delegado da Polícia Civil ao SP2.

Usuários espalhados
Operação deflagrada na madrugada desta quarta-feira (11) contra o tráfico de drogas na Praça Princesa Isabel, no Centro da capital paulista, apontada como a “nova Cracolândia”, provocou mais uma migração dos dependentes químicos que moravam na região.

Esta foi a segunda mudança de endereço da Cracolândia em pouco mais de um mês. Os dependentes estão agora espalhados por vários pontos do centro da capital: alguns na Avenida Duque de Caxias, outros, no entorno da Praça Princesa Isabel e na Alameda Barão de Piracicaba.

Segundo um morador da região, um grupo de cerca de 60 pessoas chegou a tentar invadir o Sacolão Campos Elíseos, na Alameda Eduardo Prado. Os comerciantes fecharam as portas, a polícia chegou, ainda segundo o morador, e, como o grupo não conseguiu entrar no mercado, seguiu subindo a rua em direção à estação Marechal Deodoro do Metrô.

De acordo com o segurança do sacolão, alguns dependentes químicos jogaram pedras nos vidros, e um deles ficou trincado. Ninguém ficou ferido, não houve furtos nem danos aos clientes. Segundo ele, o grupo estava dando voltas no quarteirão por volta das 19h40.

A ação, que envolveu 650 oficiais das polícias Civil e Militar e da Guarda Civil Metropolitana, além de funcionários da prefeitura, resultou em cinco presos (dois eram procurados e três foram detidos em flagrante), além de apreensão de documentos (como RGs e CPFs) e drogas (quantidade não divulgada até a última atualização desta reportagem), segundo a polícia.

O objetivo era prender 36 pessoas, a maioria traficantes. Um dos presos foi Lucas Felipe Macedo Marques, que, segundo a polícia, mantinha uma banca de drogas no local. Os policiais apreenderam drogas, dinheiro e cadernos com anotações dos traficantes.

Segundo o delegado Roberto Monteiro, “o que nós descobrimos no trabalho de inteligência é que não se tratava de uma venda e consumo por dependentes. Na verdade, se tratava de vários traficantes hierarquizados, mantidos em organização criminosa que faturava inclusive, segundo as nossas estimativas, perto de R$ 200 milhões por ano”.

O padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, afirmou que os usuários ficaram agitados com a ação e, em vez de um único grupo, agora são vários.

“Eles estão espalhados, estão muito agitados com toda a truculência que eles receberam, que mais uma vez o poder público engana a população, espalhou as pessoas pelas ruas e isso vai gerar mais ódio. Ao invés de ter um grupo temos agora dezenas de grupos espalhados. Vai pulverizar pela cidade, mas o principal e o mais grave é que as pessoas continuarão abandonadas, continuarão sem nenhuma assistência, continuarão sendo desrespeitadas. Foram tratadas mais uma vez como lixo.”

Segundo o delegado Monteiro, a ação foi pacífica e que não houve truculência por parte dos agentes.

Há, pelo menos, três décadas as autoridades tentam acabar com a Cracolândia. O problema é complexo e, como tal, exige mais do que ações policiais pontuais. Para Thiago Marques Fidalgo, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a solução definitiva para a Cracolândia passa por uma articulação entre vários setores – como saúde, assistência social, segurança pública, cultura e esporte e deve ter como foco o usuário.

“O que a gente precisa é ter o foco do cuidado no usuário. Então, é oferecer assistência, moradia, oportunidade de emprego, oferecer cuidado de saúde, não só tratamento da dependência, mas cuidado de saúde em geral. Pensar num programa integrado, visando o bem-estar e melhoria da qualidade de vida e o resgate da dignidade social das pessoas que circulam pela Cracolândia”, afirmou.

“Cada tentativa que é feita sempre costuma ter o foco em segurança pública”, ressalta, “e a Cracolândia é um problema muito complexo, que envolve também segurança pública, mas é fundamentalmente um problema de saúde pública. Então, para a gente ter uma solução que seja mais definitiva, precisa pensar no cuidado e na saúde das pessoas que circulam por lá”.

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social informou, por nota, que foram feitos 146 atendimentos pelos assistentes sociais e que 17 pessoas aceitaram ser encaminhadas para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

Depois da operação da polícia, os dependentes químicos saíram às pressas deixando para trás pertences. Com a praça vazia, a prefeitura começou uma reforma na parte que até a terça (10) era ocupada pela Cracolândia.

Marcelo Salles, subprefeito da Sé, afirmou que será feita “descompactação de toda a terra, a recomposição do paisagismo, poda de árvore, recuperação das galerias de águas pluviais que quem não tá aqui pode não perceber, mas tem um cheiro muito forte, vamos desentupir tudo e arrumar todo o sistema de drenagem da praça”.

Os comerciantes da região estão ansiosos para que as coisas voltem ao normal. A loja de carros de Kléber Silva, por exemplo, vendia cerca de 15 veículos por mês, mas negociou apenas um nos últimos 30 dias. “Estamos passando três meses numa dificuldade muito difícil, tremenda, não está aparecendo cliente, os clientes que você pega no anúncio, já fala se aqui é a Cracolândia, e eu tenho que ser sincero, infelizmente estou em frente, e eles falam ‘Não tem como ir aí, eu tenho medo’.”

Em 22 de março, a Cracolândia amanheceu na Praça Princesa Isabel. Ninguém soube dizer como nem por que o fluxo mudou de endereço. Até a noite anterior, ele ficava em frente à estação Júlio prestes. Atualmente, essa área está fechada com tapumes e vem sendo revitalizada pela prefeitura.

Fonte: G1


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