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Vítimas do incêndio na Creche Gente Inocente buscam ajuda para viver

Após um ano da tragédia na Creche Gente Inocente, que deixou 14 pessoas mortas em Janaúba, no Norte de Minas, as famílias ainda buscam amparo e lidam diariamente com a dor. A estrutura de uma casa que era utilizada como creche se tornou cenário de horrores depois que um vigia jogou álcool nele e nas crianças e ateou fogo. Dez crianças morreram, três professoras e o vigia Damião.

Cinquenta pessoas ficaram feridas e dezenas de crianças que foram queimadas passaram a depender integralmente dos pais. A faxineira Fernanda Silva se tornou dona de casa para ajudar a filha, de 6 anos, que se queimou durante o ataque.

A criança teve lesões graves na pele e passa dias e noites em frente a um climatizador de ar que os pais compraram graças a doações que receberam. Ela ainda precisa da mãe para que passe protetores e cremes na pele dela o tempo inteiro. Além das consequências físicas, Fernanda conta que é o comportamento da filha que mais a preocupa.

“Tem hora que ela fica triste, fica com medo. Mudou muito o comportamento dela, ainda mais porque ela não pode sair. Hoje se a gente fala um pouco mais alto ela começa a chorar, se esconde da gente. Teve uma vez que um menininho riu do rosto dela, ela chorou tanto e me perguntou se ia ser sempre assim. O que eu vou responder? Ela até pega minhas maquiagens, passa escondido tentando esconder o rosto, minha filha nunca vai ser o que era antes. Ela não aceita ver crianças brincando, irem para um rio, porque ela também queria. É muito difícil explicar isso a ela”, lamenta.

As condições da menina preocupam a família, que afirma não ter condições de custear o tratamento. Fernanda relata que a filha até teve acompanhamento psicológico no começo, mas agora precisa pegar a fila do SUS, caso queira continuar. Além disso, a bolsa de R$ 1 mil paga pela prefeitura tem boa parte destinada a arcar com as contas de energia que dispararam por conta do uso do climatizador durante o dia inteiro. Para os medicamentos e uma faixa especial que a menina precisa aplicar na pele, sobra pouco ou nem sobra, de acordo com a mãe.

“A faixa de tela mesmo ela não usa mais. Em Belo Horizonte eles deram, mas ela cresceu e não serve mais, ficou apertado. Eu acho que ela tinha que usar em um calor desses, como eu posso deixar essa menina colocar a cara na rua com a chance de ter um câncer de pele? A pensão acaba em dezembro e não sei como vamos fazer”, diz.

Na época da tragédia, o marido de Fernanda tinha emprego fixo, mas como se ausentou por muitas semanas para acompanhar a filha no tratamento em Belo Horizonte, acabou ficando desempregado. Agora, a família sobrevive através da pensão que recebe da Prefeitura de Janaúba desde que houve o acidente, e dos serviços que o pai consegue de vez em quando como carregador de bananas.
A dor da família de Fernanda também é compartilhada com outras mães, como a balconista Valdirene Santos. Ela não teve chance de cuidar do filho, porque o Mateus, de 5 anos, teve praticamente todo o corpo queimado. Ele chegou a ser internado em um hospital de Montes Claros por quatro dias, mas não resistiu.

“O que mais machucou é que nos quatro dias internado eu não pude dar um beijo nele, tocar nele. Só pude beijá-lo quando não estava mais entre nós. Pedi para os médicos tirarem as faixas porque eu queria ver, eu queria pegar ele no colo. Beijei muito, abracei muito. Eu pedi ele perdão porque eu pedi para que ele voltasse, mas era impossível. Era egoísmo da mamãe”, diz emocionada.

Valdirene conta que reúne forças todos os dias para seguir em frente. Depois de não conseguir mais viver na casa onde morava com o Mateus, ela se mudou e mora ao lado dos pais, onde cuida das duas filhas mais velhas.

Na casa nova, a mãe ainda tem muitas fotos do menino nas paredes e na estante. Em um porta-retrato, ela guarda o folheto da missa de sétimo dia do filho. Ainda em meio ao luto e às lágrimas, Valdirene encontra fé para agradecer a Deus.

“Esse ano que passou foi muito de oração, de pedir muito a Deus força e agradecer pelas noites difíceis superadas. Porque elas são difíceis, é no silêncio que bate a tristeza, mas eu agradeço por ter convivido com ele, por ter força para cuidar das minhas filhas. Se eu já amava minhas filhas hoje amo muito mais, cuido mais”, afirma.

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A balconista se emociona ao lembrar do quanto o filho foi especial. “O dia 5 de outubro nunca vai ser esquecido por mim. Foi o dia que meu filho se queimou e para mim o dia que o perdi. Não pude mais vê-lo sorrir, falar com ele. Eu lutei tanto por ele, sabe? Meu sonho era ter um menino. Eu queria meu menino. Ele nasceu com problema, mas foi curado. Acho que porque ele tinha um jeito especial de conquistar as pessoas, era um menino de luz. Quando eu cheguei no hospital, eu vi a médica chorar. Ela disse que ele a transmitiu paz, luz, disse que nunca ia esquecê-lo. O meu filho foi aplaudido pelos médicos, tinha cativado a equipe. Isso me fortaleceu”, conclui.

Fonte: G1


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