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Manaus registra sete casos de racismo e injúria racial nos cinco primeiros meses de 2020, diz SSP

A cidade de Manaus registrou sete casos de racismo e injúria racial nos cinco primeiros meses de 2020, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM). Entretanto, os casos de racismo na capital amazonense vão muito além do que os registrados oficialmente, conforme ativistas do movimento negro no estado.

Em junho, uma universitária foi agredida por vizinhos no condomínio onde mora, no bairro Parque Dez, Zona Centro-Sul de Manaus, após ouvir comentários racistas, como “Essa negra tem que morrer”.

A SSP-AM informou que os casos de racismo e injúria racial são contabilizados juntos pelas estatísticas do órgão. Entre janeiro e maio deste ano, sete casos foram registrados em delegacias de Manaus. No mesmo período, no ano anterior, foram 13 casos.

Conforme o órgão, as denúncias foram registradas em diferentes Delegacias Interativas de Polícia (DIPs) da cidade, mas a Polícia Civil também conta com a Delegacia Especializada em Ordem Política e Social (Deops) para o atendimento especializado dos casos de racismo e injúria racial.

O crime de racismo previsto em lei é aplicado quando a ofensa discriminatória é contra um grupo ou coletividade. Por exemplo, impedir que negros tenham acesso a estabelecimento comercial, privado, etc. De acordo com o Código Penal, injúria racial se refere a ofensa à dignidade ou decoro utilizando palavra depreciativa referente a raça e cor com a intenção de ofender a honra da vítima.

Apesar dos registros oficiais, a ativista do “Coletivo Difusão”, movimento social que luta pela igualdade racial, Michelle Andrews, afirma que os casos de racismo em Manaus vão muito além do que os registrados oficialmente. Segundo ela, o racismo existe e ainda está enraizado na cultura da sociedade, onde, segundo ela, entra o combate ao crime.

“O racismo é estrutural. Ele está nas instituições, nos espaços de entretenimento, em universidades. A gente tem que partir do princípio de que o racismo ele existe. E que, culturalmente, as pessoas ainda vêm replicando o racismo nesses espaços. Aí, precisamos entrar numa etapa em que precisamos conseguir fazer a denúncia do racismo e, principalmente, prosseguir com o processo. O racismo existe e, com certeza, tem muito mais casos do que esses registrados”, comentou.

Na madrugada do dia 25 de junho, a universitária Dayse Brilhante, de 22 anos, foi agredida com socos, pontapés e puxões de cabelo enquanto passeava com o cachorro no condomínio onde mora. A jovem denunciou à polícia que foi agredida por vizinhos supostamente embriagados, que faziam uma festa no local, e que foi vítima de comentários racistas antes e durante as agressões.

A vítima contou ao que notou que estava sendo filmada por mulheres de dentro de uma casa, onde ocorria uma festa, e se aproximou do local para perguntar o motivo da gravação. A universitária contou que comentários de teor racista foram direcionados a ela, como “essa negra não deveria estar passando por aqui” e “preta”. Depois, ela foi agredida por um grupo de vizinhos.

“É algo que parece que já não existe. Nunca pensei que alguém pudesse se motivar a agredir outra pessoa simplesmente pela cor da pele. Só estava passeando com o meu cachorro. Não teve explicação o que eles fizeram comigo”, contou Dayse.

A mãe de Dayse, Letícia Brilhante, que também foi agredida ao tentar defender a filha, disse que questionou os vizinhos sobre o motivo das agressões estarem acontecendo contra a filha e os ouviu respondendo que “essa negra tem que morrer”.

A União dos Negros (Unegro) se posicionou com total repúdio em relação ao fato, e lamentou o acontecido. Na ocasião, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Seccional Amazonas também emitiu uma nota de repúdio lamentando o caso.

Para que o racismo deixe de existir, a ativista Michelle Andrews afirmou que é necessário que tenha uma política antirracista dentro de instituições como segurança, saúde, educação e cultura , para que as pessoas sejam conscientizadas sobre o crime. Segundo ela, deve haver medidas no Plano Nacional de Educação que combata a mentalidade racista que, ainda de acordo com ela, culturalmente existe na sociedade.

“Precisamos que essas instituições dialoguem mais com os movimentos e que consigam incluir os parâmetros que o movimento negro coloca como algo que vá conseguir mudar os impactos que o racismo deixou na nossa sociedade. Tem que aderir as sugestões para que, daqui a 10 ou 5 anos, a gente consiga visualizar uma mudança nesse cenário que é racista e mata pessoas diariamente, tanto fisicamente, quanto deixa traumas psicológicos grandes em quem sofre racismo”, finalizou Andrews.

Protesto em Manaus
Uma onda de protestos contra o racismo aconteceu em vários países, após a morte do ex-segurança George Floyd, de 40 anos, em 25 de maio, em Minneapolis, nos Estados Unidos. Na ocasião, um vídeo mostrou o homem negro sendo imobilizado por um policial branco com os joelhos em seu pescoço, durante 8 minutos e 46 segundos. A vítima disse, por mais de uma vez, que não conseguia respirar.

Segundo a polícia local, ele foi detido por supostamente usar notas falsas em um mercado. Ele foi levado inconsciente por uma ambulância logo após a abordagem policial e foi declarado morto ao chegar no hospital.

A série de protestos contra o racismo também aconteceu em Manaus, após o ocorrido. No dia 2 de junho, um protesto pró-democracia organizado em redes sociais por integrantes do movimento “Amazonas pela Democracia” interditou a Avenida Djalma Batista, na Zona Centro-Sul de Manaus. Os manifestantes protestaram contra atos de racismo, machismo e também contra o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Durante o ato, os manifestantes carregaram cartazes com as frases “Vidas Negras Importam” e “Parem de Nos Matar”. Antes do encerramento, alguns manifestantes fizeram um ato artístico para simbolizar a violência contra negros e pobres no país.

Fonte: Divulgação


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