- Esportes

Leitor de Freud, fã de R10 e do Grupo Revelação: conheça o angolano que fez história no Rizin

O último dia de 2019 foi histórico para o MMA angolano. Pela primeira vez um lutador do país conquistou um cinturão de um grande evento. O responsável pelo feito foi Manel Kape, que nocauteou Kai Asakura na luta principal do Rizin 20 com uma performance de alto nível e levou para casa o título vago do peso-galo da organização (veja a luta no vídeo abaixo).

A trajetória até o cinturão foi longa. Apesar de ter apenas 26 anos, Manel já viveu experiências das mais diversas. Ele deixou Angola com apenas quatro anos e tem poucas lembranças da infância em seu país de origem. Foi nesta época que mudou-se para Portugal e quase seguiu carreira no futebol. Já adulto e lutador de MMA, voltou para sua terra natal, precisou superar uma doença e depois mudou-se para a Tailândia, onde vive até hoje. Tudo isso antes de sua glória maior até o momento. Além disso, ele foge do lugar comum em comparação aos outros atletas: gosta de ler livros de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, é dono de uma marca de roupa, além de ser fã de música brasileira, especialmente do Grupo Revelação.

Mas vamos contar a história do começo. A ida para Portugal se deu através de seu pai, Manuel Gomes, que venceu um campeonato no país europeu e recebeu uma proposta de emprego do Boavista, clube local. Lá, ele fez história ao conquistar dois títulos mundiais (TWBA e IBF) e até hoje tem seu retrato exposto no museu do Estádio do Bessa, onde o Boavista manda seus jogos de futebol.

– Ele tinha competido pela seleção angolana fora do país, em Portugal, e foi para uma competição onde venceu os melhores atletas de Portugal. O Boavista ficou impressionado, ofereceu emprego na construção civil e como atleta profissional. Foi assim que ele se mudou. Depois ele fez contatos, conseguiu casa e meios para nos trazer ainda pequenos para viver em Portugal. Eu, minha mãe e meus irmãos – contou Kape, ao Combate.com.

Manel tem quatro irmãos e todos praticam ou já praticaram esportes. Aos seis, ele começou no boxe treinado por seu pai, mas o início nos esportes foi no futebol. O estilo ousado e marrento, que carrega até hoje nos ringues, já aparecia nos gramados e a habilidade com a bola no pé quase o fez chegar à seleção portuguesa nas categorias de base, mas ele recusou impulsionado pelo pai, que queria que Kape defendesse Angola (veja a habilidade de Manel com a bola no vídeo abaixo).

Porém, o excesso de firulas também foi responsável indireto para que ele tomasse a decisão de se dedicar apenas às artes marciais. Driblador, jogava pelas pontas e, ele garante, também fazia seus gols. A inspiração, segundo ele, vinha de Ronaldinho Gaúcho (“Sempre foi e sempre será meu ídolo, disse”).

– Eu jogava futebol no Boavista e fui convocado para jogar na seleção do Norte, que joga contra o Sul do país, e depois os melhores vão para a seleção principal. Na época eu estava com proposta para jogar no Porto e no Coimbra, e meu pai era muito patriota. Ele entregou três cinturões para o ex-presidente de Angola. E eu tinha aquela promessa do Governo fazer mundos e fundos, de representar a seleção nacional… Por um lado foi ruim não ter aceitado, porque teríamos documentação portuguesa, vivemos lá mais de 23 anos e não temos documentos portugueses, mas temos lá residência e casa. Minha saída do futebol foi porque gosto de jogar, mas para brincar, dar canetas, lambretas. Só que uns árbitros me advertiram por isso, dei uns empurrões neles, tomei vermelho em um jogo e fiquei um tempo sem jogar futebol. Então foi minha decisão: estava indeciso sobre qual escolher, futebol ou artes marciais. Segui as artes marciais, que me davam mais desafios e empolgação para aprender novas coisas todos os dias.

Já adulto, com seus pais tendo voltado para Angola, Manel quis conhecer sua origem e embarcou com a ideia de dar seminários. Àquela altura, cerca de quatro anos atrás, já atuava em eventos de Portugal, França e Espanha e, aos 24 anos, resolveu morar na África para ficar perto de seus pais, avós e familiares. Porém, apesar de ter bons treinos de jiu-jítsu, tinha dificuldade em se manter como atleta pela má qualidade de vida, preços altos de suplementos e dificuldade em encontrar material humano para a prática do MMA no país.

O que ele não contava, entretanto, era ser vítima de paludismo (ou malária, como é mais conhecida a doença no Brasil).

– Fui para lá numa época difícil. A África é complicada de viver devido ao déficit de qualidade de vida e dos preços. Foi uma época difícil, mas de mudanças, foi quando mudei para o Rizin. Passado um ano, estava no Rizin e as coisas começaram a melhorar. Foi época de aprendizado, como o último teste que precisava. Quando fui para a Angola peguei uma doença, estive prestes a morrer, perdi 12kg. Como se diz: tempos difíceis não duram para sempre. Foi o último teste de vida para mim, superei e estou saudável. Mas é normal na África em pessoas que vêm da Europa, outros países que têm água potável, comida extremamente saudável… Peguei uma doença chamada paludismo, que vem da picada de mosquitos e alimentação. Normalmente os vegetais têm que ser muito bem lavados. Na África é um caso complicado, com infecções de vírus, animais, mosquitos… Não conseguia andar, me ajudavam a comer, fiz tratamentos no hospital e isso me afetou bastante. Muita gente morre, é a doença que mais mata na África. Depois de curado, de fazer os tratamentos e tomar os antibióticos, isso passa. A gente não deixa de ter nenhum cuidado, meu corpo ganhou imunidade a essas doenças – explicou.

Os resultados de Manel fizeram o lutador encontrar diversas autoridades de Angola e, segundo ele, tornar-se conhecido em todo o país, entretanto, a prática do MMA ainda não é algo comum na região.

– O MMA é muito popular na África e, em Angola, também. Não existem imensas academias de MMA, porque os atletas não competem em nível profissional. São poucos que fazem MMA. Existe bastante jiu-jítsu, é bastante famoso em Angola. O MMA está sendo mais acompanhado desde o ano passado, é algo novo, as pessoas gostam, ficam excitadas pela mistura das artes. Nos últimos dois anos tem crescido. Não em nível de imensas academias, mas é bem visto – analisou.

– O povo africano é um povo com bastante força e determinação. É um povo sofrido, somos um povo que queremos estar à frente de tudo. E é bom para dar exemplos a outros atletas africanos que queiram chegar longe no esporte. O que falta é disciplina para o atleta africano. Se tiver disciplina, vai bastante longe, porque não é por acaso que o africano tem aquela força natural. É muito bom ter campeões porque isto mostra de verdade que, quando o africano se empenha, trabalha, se dedica, tem disciplina, pode chegar longe e atingir o máximo expoente do esporte.

Manel Kape estreou no Rizin em outubro de 2017 e impressionou com nocautes no primeiro assalto contra Erson Yamamoto e Ian McCall. Porém, em seus dois confrontos seguintes, acabou derrotado por Kyoji Horiguchi e Kai Asakura. O último revés o fez se mudar para a Tailândia em busca de melhores condições de treinamento. Desde então ele mora lá e se prepara na filial tailandesa da academia AKA.

A mudança parece ter surtido efeito. De lá para cá foram cinco lutas, sendo quatro vitórias. Na última delas, em revanche contra Asakura, desta vez pelo cinturão dos galos, nocauteou aos 38 segundos do segundo round. Ele atualmente se divide entre Tailândia e Portugal, onde possui uma marca de roupa.

– Minha vida aqui na Tailândia, graças a Deus, é privilegiada. Tenho meu próprio apartamento, vivo em perfeitas condições, com bastante treino. A vida do atleta não é fácil. Treino três vezes por semana, três vezes ao dia e duas vezes por semana, duas vezes ao dia. Tenho qualidade de vida boa, agradável. Em Portugal vou mais por ter negócios, tenho minha marca, vendo lá e no Japão. Futuramente vou ter instalações de MMA. Não só para a parte da luta, mas para a parte da saúde, que gosto. E da moda, gosto bastante de moda. Para mim, luta, moda e música são tudo. Não tenho filhos, só tenho minha namorada. Estamos juntos há seis meses. Tem sido bom, somos jovens, curtimos a vida ao máximo, com cabeça e com juízo – afirmou.

Estilo marrento, fã de literatura e de música brasileira
Quem já viu alguma luta de Manel Kape sabe: a provocação faz parte do seu jogo. Dono de um estilo marrento, ele tenta mexer com a cabeça de seus oponentes desde antes de o árbitro ordenar o início do combate. Segundo ele, é uma característica que tem desde criança e que considera importante, baseado inclusive em livros de psicologia que gosta de ler.

– Esse é meu estilo desde os oito anos de idade. Gostava de lutar com pessoas mais velhas do que eu e procurava sempre uma alternativa para vencer, não só na luta corporal, mas no nível psicológico. Usava intimidação, aquele falatório que eu tenho. Eu adotava a postura de falar bastante, intimidar com as palavras. Percebia que eles eram o dobro de mim, não podia chegar lá e ter uma luta com eles. Sempre foi assim. No jiu-jítsu, no MMA amador, quando já lutava com os mais velhos, eu intimidava. Sempre foi uma parte psicológica que gostei. Adoro sentir essa pressão, não só por ler livros de psicologia, trabalhar minha mente desde criança. Eu me divirto bastante e não sinto a pressão das minhas palavras.

Entre os livros que considera seus favoritos estão os de Sigmund Freud. Fã de literatura, ele tem no psicanalista uma inspiração para suas lutas e acredita que seus ensinamentos o ajudam a dentro do ringue. Ele também citou o filósofo renascentista Nicolau Maquiavel como outro autor que admira.

– Gosto de Freud, o pai da psicanálise, leio toda hora. Gosto também de ler romances, acho engraçado. Tem muitos outros, vários livros que já li. Gosto de tudo que fala da vida, o porquê das coisas, sou bastante curioso e gosto de saber o porquê. Ler Freud me ajuda na vida pessoal, em como vejo as coisas, como as analiso, o porquê deste comportamento e me dá a entender coisas mais profundas. Tem a parte mais superficial, que entendemos, e a parte profunda. Em relação ao nível de lutas, gosto de ler Maquiavel, isso me dá frieza, me considero uma pessoa fria. Isso já é de mim, ser frio e estes livros me deixam ser mais frio ainda no que eles falam, no que eles revelam sobre guerras, do controle das situações e como governar. Acho que essa parte me deixa mais confortável na parte da luta. Quando tenho uma luta, me dá uma frieza e um poder psicológico extremamente forte.

Outra paixão de Manel Kape é a música, e a brasileira está entre suas favoritas. Inclusive, ele revelou ter ouvido Grupo Revelação por mais de duas horas antes de ganhar o cinturão do Rizin contra Asakura.

Fonte: Globo esporte


There is no ads to display, Please add some