É incrível pensar nisso, mas há precedentes para que Barcelona e Lionel Messi acabem no tribunal por conta de sua última batalha travada, que se intensificou na terça-feira, quando o craque informou que deseja deixar o clube após quase 20 anos de serviço. É espantoso que as posições adotadas por ambas as partes signifiquem que, a menos que alguém dê o braço a torcer, eles acabarão juntos novamente.
De Josep Bartomeu ao diretor esportivo Pep Segura, além do infeliz Quique Setién, seu assistente técnico Edu Sarabia e agora Ramon Planes, não consigo imaginar como eles têm a coragem de se olhar no espelho hoje, amanhã ou nos próximos meses. Eles, cumulativamente, pegaram o amor e a devoção de Messi pelo clube e mancharam essa relação – talvez de forma permanente.
No entanto, aqui estamos. O fato é que meu argumento, visto que envolve precedentes históricos precisos, boa orientação, maturidade e visão, provavelmente será ignorado por Bartomeu e os outros do Barça, mas vou falar mesmo assim
A infelicidade e a discórdia entre os lados, além da inaptidão contínua do clube, significam que é hora de Messi deixar o Barcelona.
Quando o conselho de Joan Laporta decidiu em 2008 que Messi era “muito importante” para a revolução que estava acontecendo no Barcelona, agora que Pep Guardiola fora promovido ao time principal, para que ele pudesse disputar a medalha de ouro pela Argentina em Pequim, o conflito terminou com uma decisão favorável ao clube pelo Tribunal Arbitral do Esporte.Naquela época, o presidente do clube, que sempre foi um crítico desta diretoria e de seu líder, Bartomeu, se encontrava em uma situação que parecia, para ele, tão “dura” quanto a atual para. Já sem vencer títulos há alguns anos, um time envelhecido e o risco – que em 2008 parecia grande até para Guardiola – de promover uma promessa às custas de um vencedor comprovado como José Mourinho, Laporta só queria a próxima temporada para poder colocar Messi em campo – e não correr o risco de o argentino sofrer uma lesão na China.
Guardiola assumiu um dos maiores riscos da história do futebol e disse a Messi que ele deveria ir para a China, argumentou com Laporta e então colheu os benefícios quando o orgulhoso argentino voou nas Olimpíadas, voltou com a medalha de ouro e se tornou um dos melhores jogadores que o mundo já viu.
Fato é que, se o Barcelona desistir do direito que tem de fazer valer o contrato de Messi, que dura até o final de junho de 2021, e evitar uma batalha judicial, não é como se o jogador fosse apenas se ausentar por algumas semanas e voltar depois cheio de gratidão. Se ele for, não vai mais voltar – pelo menos como jogador. Mas o ‘burofax’, uma espécie de telegrama com conteúdo oficial, de Messi para o clube na terça-feira não pede simplesmente que ele seja autorizado a sair se um clube pagar o que o Barça quiser. Messi sugeriu que ele ainda tem direito a uma cláusula de ‘passe livre’ em seu contrato que expirou em maio. Se isso for comprovado de um jeito ou de outro, o argentino sairá pela porta da frente e o Barcelona não ganhará absolutamente nada com isso.
Se o estafe de Messi optar por discutir essa questão no tribunal, o Barcelona estará pronto para contra-atacar. Como tal, acho que minha comparação com 2008 se mantém.
O que Pep Guardiola testemunhou em 2008, mesmo quando Messi tinha apenas 21 anos, foi um jovem deprimido e que provavelmente guardaria rancor disso pelo resto da vida. Guardiola percebeu, entendeu e fez uma grande aposta: qualquer coisa que acontecesse nas Olimpíadas não poderia ser pior do que privar Messi de algo que ele não apenas merecia, mas que sabia que merecia.
Qual é o cenário para os tomadores de decisão do Barcelona em 2020 se eles forçarem Messi a ficar contra sua vontade ou, pior, ir ao tribunal para fazer valer seu direito de não lhe conceder liberdade ou liberdade a um preço justo?
Os pragmáticos que dizem “Ninguém é maior que o clube, mesmo que esse alguém seja Messi” podem ser descartados por não saberem absolutamente nada sobre esta situação ou seus protagonistas. Messi, infeliz, negociando no meio da temporada com uma série de clubes e travando batalhas com um novo treinador como Ronald Koeman, é uma perspectiva desastrosa.
Não que ele deva ir simplesmente porque ficará de mau humor. Não estou defendendo isso. Ele deveria ter permissão para ir porque ele merece poder maximizar seus últimos anos de carreira em um ambiente competitivo, onde a excelência diária é exigida de cada funcionário. Mais do que isso: ele deveria ter permissão para ir, seja de graça ou por um preço simbólico, porque Messi está tão acima que o público do futebol – ou seja, torcedores, jogadores, treinadores, mídia, patrocinadores – merece vê-lo prosperando, feliz, comprometido e sendo exigido nos próximos anos.
Os próximos 12 meses, especialmente se esta diretoria permanecer no cargo até as eleições obrigatórias do meio do ano que vem, prometem ser, para Messi, uma perda de tempo.
O que torna tudo isso muito mais desastroso para o Barcelona e para qualquer um que se importe com o clube é que a diretoria está olhando para o caminhão em sua direção, sem se mexer, há muitos meses. Perder Neymar, por causa de uma total incapacidade de interpretar uma situação ou fazer qualquer coisa a respeito, pode ser considerado descuidado, mas repetir o padrão com o maior jogador de todos os tempos é simplesmente imperdoável.
Com isso, quero dizer que, quando Neymar rejeitou uma renovação contratual, o conselho do Barcelona parecia completamente alheio ao fato de que isso era uma mensagem clara: “PRETENDO DEIXAR O CLUBE NA PRÓXIMA JANELA DE TRANSFERÊNCIAS”. Sim, tudo em maiúsculo.
Até o PSG depositar os 222 milhões de euros na conta do clube e levar o brasileiro do Barcelona para a capital francesa, a hierarquia de Camp Nou continuou a se comportar como o imperador com “roupas novas”. O mesmo cenário repetindo, apenas três anos depois, é absurdo. Na verdade, se houvesse justiça no futebol, isso deveria ser considerado crime, mesmo que resulte apenas em liberdade condicional ou trabalho comunitário.
Quando o estafe de Messi negociou a renovação do contrato em 2017, eles conseguiram uma cláusula que estabelecia que em toda janela, a partir de maio de 2018, ele teria permissão para sair de graça se simplesmente dissesse ao clube antes do final de maio que ele queria ir embora.
Desde o momento em que a comitiva de Messi deixou o escritório de Bartomeu em 2017, Bartomeu e seus colegas deveriam estar focados em apenas um dever: fazer de tudo para que Messi resolvesse se aposentar com a camisa do Barcelona. Em vez disso, eles tiveram um desempenho tão ruim que enojaram o argentino. Eles o fizeram jogar fora seu amor e lealdade ao Barcelona.
É como se o papa se declarasse ateu ou os torcedores do Manchester United votassem no Leeds como seu segundo time favorito.
Prepare-se, você vai ouvir de tudo nas próximas semanas. Tudo, desde “Messi é desleal” e “ele não pode impor termos ao clube” a “O presidente Bartomeu deve renunciar” e “eleições imediatas”. Mas não vamos perder de vista o fato de que este homem, independentemente do clube que você ama, iluminou nossas vidas nos últimos 15 anos.
Messi está lá em cima com Muhammad Ali, Michael Jordan, Juan Manuel Fangio, Jack Nicklaus, Tiger Woods, Rafa Nadal e Roger Federer. Na verdade, eu te desafio a argumentar que sua vida não foi melhor, mais brilhante, mais alegre, mais divertida depois de assistir Messi durante sua passagem pelo Barcelona. Não deixe isso ser esquecido.
Duas das poucas coisas que os céticos usam contra Messi foram sua preferência, até agora, por ser um homem de apenas um clube, um argumento que sempre achei inválido. Somente os grandes se destacam quando passam toda a carreira em um só lugar, fazendo as mesmas coisas, mas permanecendo no topo.
Depois, tem a Copa do Mundo. Não, ele não conseguiu vencer, mas a Champions League agora é um torneio muito mais importante e prestigioso, e a ideia de que Maradona ganhou seu Mundial sozinho é absurda.
No entanto, ninguém vai negar que Messi anseia por esse troféu – tanto para provar seu amor e dedicação pela Argentina, acredito, quanto para satisfazer qualquer desejo pessoal de glória. Neste momento, aposto tudo que a forma como o Barcelona, na segunda-feira, descartou o melhor amigo de Messi no futebol, Luis Suárez, influenciou em sua decisão. Mas eu também aposto que o que está no cerne de suas frustrações com os padrões no Camp Nou é o desejo de treinar e jogar em um clube de ultracompetitivo todas as semanas até quando a Argentina precisar de seus serviços para tentar vencer a Copa.
Próxima parada: Manchester City? PSG? Inter de Milão? Inter Miami? Não sei qual é a sua preferência, mas essa mudança não aconteceu sem ele, pelo menos mentalmente, escolhendo onde gostaria de estar na próxima temporada.
Man City? Bem, é um porto seguro e em uma liga que ele adoraria jogar, embora eu tenha certeza de que Guardiola, dado seu desejo de que o City pressione os times, seria na verdade o autor de uma proposta do time para Messi.
PSG: Se eles conseguirem reunir Messi, Neymar, Kylian Mbappé e Angel Di Maria no mesmo time, quem não ficar fascinado com essa possibilidade precisa ser estudado.
Inter de Milão: Não é o campeonato certo, não é o clube certo, mas é um time que tentou, ao longo dos anos, contratar Messi.
Inter Miami: Não, simplesmente não. A cidade e o projeto podem interessá-lo, mas o padrão dos companheiros e dos adversários não se encaixa no que ele precisa agora.
De qualquer forma, ele tem um grande jogo para vencer primeiro, um em que, se tiver alguma decência, a diretoria do Barcelona economizará dezenas de milhões de euros ao conceder graciosamente e dizer: “Nós erramos, Leo. Aceitamos que é hora de você ir. Obrigado, boa sorte e que Deus te abençoe”.
Infelizmente, porém, os comandantes no Camp Nou estão mais propensos a correr e se chocar uns com os outros e deixar a situação fluir para pior, não para melhor.
Fonte: Msn
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