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Pioneira do MMA feminino lembra dificuldades e treina Exército do Catar para a Copa do Mundo

A história do MMA feminino no UFC é bem conhecida. Após vetar durante anos a presença de mulheres lutando no Ultimate, Dana White deu o braço a torcer depois de ver as apresentações de Ronda Rousey no Strikeforce. Foi por conta do sucesso da americana que outras mulheres ganharam seus espaços e brilham em vários eventos com muito mais visibilidade do que antes.

Mas pavimentar esse caminho não foi fácil, especialmente no Brasil.

Após o surgimento do UFC em 1993, começaram a pipocar eventos por todo o país, revelando uma série de nomes nos primórdios do vale-tudo. Porém, foi apenas 10 anos depois que uma organização brasileira resolveu dar espaço para uma luta feminina.

O Meca 10, realizado em dezembro de 2003, colocou frente a frente duas competidoras de jiu-jítsu para se enfrentarem nas regras do vale-tudo: Ana Carolina Pinho, aluna de Vinícius Draculino em Belo Horizonte, teve pela frente a experiente Carmem “Casca-Grossa”, uma já conhecida lutadora da arte suave.

A vitória foi de Ana Carolina com uma chave de braço aos 4m35s do primeiro round do evento realizado em Curitiba. Elas subiram ao mesmo ringue naquela noite em que nomes conhecidos como Jorge Patino “Macaco”, Daniel Acácio e Luis “Besouro” também estiveram em ação.

Mas a vitrine conquistada com aquela vitória em um dos principais eventos da época não rendeu a vencedora o que, de fato, ela sonhara.

Natural do Rio de Janeiro, Ana Carolina começou no jiu-jítsu no início dos anos 90, na academia do Professor Luiz Carlos Manimal, um famoso discípulo do mestre Carlson Gracie. Eram tempos difíceis para qualquer mulher que decidisse vestir um quimono e competir no esporte, como contou a lutadora ao Combate.com.

– No meu primeiro treino me senti super bem e senti que aquilo era pra mim. Foi paixão à primeira vista, dei aquele primeiro treino e gostei. Comecei a competir, e ganhava bastante. No início, eu tinha que levar o quimono debaixo do braço e casar alguma luta na hora, porque não tinha muitas meninas treinando. Só depois surgiram os campeonatos oficiais e as federações. Fui me destacando, venci os campeonatos Carioca, Brasileiro e Mundial.

Ao se mudar do Rio de Janeiro para Belo Horizonte com sua família, Ana Carolina passou a integrar a equipe Gracie Barra BH, liderada pelo mestre Vinicius Draculino. Foi quando recebeu a proposta para fazer sua primeira luta de vale-tudo.

– Depois que venci o Mundial recebi a proposta pra lutar no Meca, naquela que seria a primeira luta de vale-tudo feminino do Brasil. Eu já treinava um pouco de boxe e sempre gostei de me desafiar, então topei na hora. Quando contei pro meu mestre que ia lutar, ele achou que eu era doida, porque na época não era normal mulher lutar. Eu pagava pra lutar no jiu-jítsu, por que não receber pra lutar? Treinei uns três ou quatro meses pra luta. Na época era aquela loucura, era vale-tudo, ninguém treinava com essa técnica que tem hoje em dia no MMA. Treinava todas as modalidades separadas e depois caía na porrada. Eu conhecia a Carmem dos eventos de jiu-jítsu, ela era da minha categoria, mas coincidentemente a gente nunca se enfrentou. A gente se falava, se cumprimentava, mas nunca lutamos.

– Pra mim foi um super desafio. Fui com a cara e a coragem, não sabia o que viria pela frente. Mas vi ali uma oportunidade de abrir um leque no mundo da luta. O evento foi muito top, fui super bem recebida pelo público. Eu fui de unhas pintadas de cor de rosa, fui de macacão, fiz trancinhas. O pessoal fala que foi a Ronda (Rousey) que inventou essas trancinhas e eu falo que fui eu (risos). Em momento algum perdi a minha feminilidade por causa da luta.

Após a vitória, que lhe rendeu uma bolsa de R$1 mil na época, a lutadora acreditou que muitas portas estariam se abrindo pra ela naquele momento. E a expectativa aumentou quando recebeu um convite para lutar no Japão.

– Eu desci do ringue com aquela sensação de querer mais. Então eu pensei que muitas coisas iriam acontecer, muitas oportunidades, mas como não havia mulheres no Brasil que lutavam, eu não conseguia luta. Depois dessa vitória no Meca eu recebi um convite para lutar no Smack Girl, no Japão, em 2004, com mulheres do mundo inteiro em um GP de três lutas na mesma noite. As melhores do mundo estariam lá. Eu era uma zebra porque a minha especialidade era o jiu-jítsu e as regras permitiam apenas 10 segundos no chão. Eu treinei pra botar pra baixo e pegar, mas o que você faz com apenas 10 segundos no chão? E a luva feminina ainda era mais grossa… Eu me saí bem, achei que lutei bem, perdi nos pontos, mas até minha adversaria (Roxanne Modaferri) assumiu publicamente que perdeu pra mim. A gente fez uma luta bacana, botei ela pra baixo umas sete vezes. Na verdade, o evento foi bem manipulado para uma japonesa ganhar. Deram a vitória pra Roxanne, que era mais leve do que eu porque os japoneses queriam que ela enfrentasse a Megumi (Yabushita) na segunda luta. A Roxanne ganhou da Megumi, mas deram a vitória pra Megumi. Aí na final a japonesa pegou uma americana (Erin Toughill) , que era uma grande campeã de boxe, já tinha até lutado com a filha do Muhammad Ali, e desclassificaram ela na final pra dar a vitória pra Megumi. Mas foi bacana, gostei muito da experiência de ter lutado lá.

Embora o resultado no Japão não tivesse sido o que esperava, Ana Carolina imaginava que outras oportunidades surgiriam, mas desde então ela nunca mais entrou num ringue de MMA.

– Depois desse evento, achei que tivesse muitas lutas pela frente, pensei que ia lutar em todo o mundo, mas não foi o que aconteceu. Estava tudo no começo e não tinha evento. Tinha uns pequenos eventos nos EUA, mas que não pagavam para você ir, então você teria que pagar pra lutar. No Brasil não tinha eventos femininos na época. Por isso parei de lutar. Não foi porque eu quis. Por mim teria lutado muito, mas simplesmente não tinham lutas pra mim, especialmente na minha categoria. Eu sempre fui grandona, forte e não tinha ninguém. Foi por causa da época mesmo que eu parei, não foi porque eu quis.

Analisando friamente, 15 anos nem parece tanto tempo, mas o cenário para Ana Carolina era bem diferente do atual na metade da década passada.

– Naquela época, mulher na luta não era comum. Eu sempre fui muito feminina, e quando eu falava para as pessoas a minha profissão elas não acreditavam. Eu sofri muito preconceito no início, inclusive dos parceiros de treinos, pois tinham uns caras que não queriam treinar comigo. Eu sempre fui casca-grossa, sempre treinei de igual pra igual, fui a única durante muitos anos enquanto treinava na Gracie Barra. Depois que comecei a ganhar títulos, o pessoal passou a me respeitar mais e não tive esse preconceito.

Fonte:Globo esporte


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