- Política

Paes assume Prefeitura com independência política, mas com Rio em crise

“O Rio está livre do pior governo da sua história”, disse o prefeito eleito Eduardo Paes (DEM) ainda no domingo de eleições, durante seu discurso após derrotar o adversário Marcelo Crivella (Republicanos) por uma margem significativa.

Com 64,07% dos votos contra 35,93% do adversário, a diferença de 700 mil eleitores a favor do ex-prefeito carioca, que esteve à frente da cidade de 2009 a 2017 durante os grandes eventos esportivos, se diferencia dos pleitos anteriores vencidos pela independência política adquirida e a situação em que encontrará a prefeitura, segundo especialistas.

Além de selar a pouca influência do presidente Jair Bolsonaro nessas eleições, em que fez campanha para Crivella e cujos filhos compõem o Republicanos, os próximos quatro anos de Paes à frente da prefeitura garantem o retorno de velhos nomes ao secretariado – como já anunciou o prefeito eleito – e uma cobrança redobrada da população contra modelos de corrupção que rondaram o estado nos últimos anos.

“O Paes sabe que foi eleito muito porque o pessoal já não aguentava mais o Crivella”, resume o cientista político e professor da PUC Ricardo Ismael, ao analisar o resultado do pleito municipal que teve o maior índice de abstenção na história da cidade (35,5% do número total de eleitores, ou mais que os votantes em Paes).

Com um criticado plano de combate à pandemia que gastou milhões na construção de hospitais de campanha – a maioria não entregue completamente – sem conter a doença com eficiência, além de episódios que renderam pedidos de impeachment, o professor garante que estratégia vencedora de Paes só foi efetiva porque se contrapôs ao atual prefeito.

“A comparação na campanha foi efetiva porque Crivella somava 62% de rejeição e, contra ele, a memória do carioca liga Paes mais aos anos de investimentos de Copa e Olimpíada que propriamente a sua ligação com Cabral e companhia”.

Com crise sanitária potencializada por números crescentes na pandemia, além de um cenário fiscal bastante diferente daquele que contou durante os anos de preparação para os grandes eventos, a perspectiva geral para este mandato é menos animadora, segundo Miguel Lago, cientista político e professor visitante na Universidade de Columbia. Se em 2008 a gestão de Cesar Maia era bastante criticada, as instituições e serviços básicos da cidade tinham um nível de funcionamento e organização mínimo, garante Lago.

“Além disso, Paes fora eleito com apoio de Cabral e Lula, que apostavam no Rio como a vitrine da aliança PT-PMDB e fizeram que a quantidade de apoio político e financeiro que a administração do Paes tivesse fosse gigantesca – mas esse cenário não existe mais”, completa ele.

No dia seguinte ao resultado do pleito, Paes já deixou claro que pretende concentrar seus esforços imediatos no combate à pandemia ao lado de um antigo aliado, o epidemiologista Daniel Soranz, que já foi Secretário de Saúde no último mandato do prefeito eleito e será também no próximo. Descartando a imposição de um lockdown, ao menos por enquanto, Paes quer reativar leitos já existentes em hospitais públicos, em um momento que a cidade passa por lotação das UTIs, e aumentar os baixos níveis de testagem na cidade. Para isso, afirmou que pretende costurar uma parceria com o governo federal para que 450 mil dos 6,8 milhões de testes PCR estocados pelo Ministério da Saúde em Guarulhos, próximos ao vencimento original, possam ser destinados ao Rio.

Apesar do antagonismo a Crivella na disputa, candidato apoiado por Jair Bolsonaro, Paes garante que tem uma “relação muito boa” com o presidente, a quem fez a primeira ligação já no dia seguinte às eleições. Mesmo que pedisse votos para o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Bolsonaro não fez ataques durante a campanha pela reeleição de Crivella, nem gravou ao lado do atual prefeito no segundo turno.

Paes, que já afirmou no passado que Carlos Bolsonaro é um vereador “muito correto”, sabe que atritos com o governo federal neste momento terão um alto custo para o Rio, afirma Ismael, de modo que “a última coisa que ele quer agora é começar a brigar com Bolsonaro, principalmente por saber que, na situação fiscal atual, só conseguirá fazer algo de produtivo na cidade com o apoio financeiro federal”.

Por outro lado, a forma mais independente que Paes foi eleito neste ano, sem contar com grandes alianças e aproveitando-se da maior estabilidade que alcançou nos dois mandatos, pode garantir um cenário menos engessado para o novo prefeito em comparação com suas últimas gestões, afirma Lago. Iniciando a carreira política no PSDB, Paes foi convidado pelo então governador Sérgio Cabral a integrar o então PMDB e concorrer às eleições de 2008 tendo-o como padrinho político e grande parceiro nos anos seguintes. A entrada no PMDB e a aliança com Cabral e garantiu o apoio de vários partidos, entre eles até o PT, mas também a grande distribuição de cargos públicos e secretarias.

Após os escândalos de corrupção que colocaram Cabral e seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, atrás das grades, o atual MDB sofreu um esfacelamento na cidade e incentivou a migração de Paes para o DEM de Rodrigo e Cesar Maia, onde venceu Crivella sem precisar de muito apoio de outros partidos.

“Vencendo as eleições sozinho ele terá muito mais margem para operar a prefeitura com independência, apesar de ainda termos uma bancada bolsonarista na câmara dos vereadores que não sabemos como vai agir, além de uma bancada maior da esquerda”, aponta Lago.

Embora os 700 mil votos de diferença mostrem uma vitória significativa, o maior desafio de Paes é “demonstrar que consegue administrar sem suspeições”, aponta ainda Ismael. Com o histórico de desvios do ex-padrinho Cabral e ainda como réu na Justiça Eleitoral por caixa dois na campanha de 2012, o prefeito eleito terá que “estabelecer um controle interno mais forte e um cuidado redobrado nas licitações para não cair outra vez em investigações”. Até lá, garante o professor, “a população só quer urgentemente que a cidade melhore”.

Fonte: Carta capital


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