O historiador e educador social Anderson Damião tem como missão melhorar a vida de crianças e adolescentes que estão em abrigos de maneira provisória ou permanente no Rio de Janeiro. A partir desta terça-feira (4), ele e integrantes de órgãos públicos e da sociedade civil fazem parte de um observatório que vai discutir a política institucional de menores no estado.
Mas, para Anderson, o objetivo não é só profissional: ele deseja que todos tenham uma chance de seguir em frente como ele mesmo teve, depois de passar por vários abrigos dos 2 anos de idade até a maioridade.
“Eu sou órfão de pai e mãe. Na primeira infância eu vivi na rua com a minha mãe. Nesse processo eu fui para o abrigo, na época a Febem. Eu ficava lá e a minha mãe transitava na rua. Com isso, o tempo foi passando. E eu fui transitando pelos abrigos. Porque a minha mãe me retirava do acolhimento. Depois, ela não conseguia e eu voltava para o abrigo. Então, desde os dois anos eu fiquei transitando no acolhimento que tinha”, disse Anderson.
O educador social esteve em locais de acolhimento na cidade do Rio e em Niterói conforme o alcoolismo da mãe se agravava. Ela morreu quando ele tinha 11 anos. Ter morado em abrigos o ajudou a saber o que cada menor pensa e passa quando está nesta situação, personalizando o trabalho de estudo e propostas da situação de crianças e adolescentes.
“Eu acho que a minha história é de superação mas, infelizmente, nem todas as crianças e adolescentes tiveram o mesmo final que eu estou tendo. Muitas não conseguiram sustentar esse processo. Então, a gente precisa entender que, apesar da gente garantir o bem-estar, a vida, não é um lugar onde uma criança deseja estar. Ela está ali porque ninguém quis estar com ela ou pode estar com ela. A gente evoluiu muita coisa, mas precisa evoluir mais ainda”, destacou.
Observa Abrigo
Atualmente, Anderson é um dos integrantes do Observa Abrigo, que é o Observatório das Políticas de Acolhimento Institucional de Crianças e Adolescentes do Estado do Rio de Janeiro. A iniciativa, que tem como objetivo discutir informações e propor políticas públicas que fortaleçam a garantia dos direitos da infância, terá abertura oficial às 9h no salão nobre da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Alguns dos participantes são: Instituto Rede Abrigo, autor da iniciativa; a Comissão Permanente de Direitos da Criança e do Adolescente; o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ); o Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI); a Defensoria Pública do Rio de Janeiro; a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio; o Unicef; e a OAB-RJ, além de representantes das Varas da Infância e de outras organizações da sociedade civil.
“O primeiro objetivo do Observatório é conseguir fazer com que esses dados conversem e a gente consiga ter uma fotografia geral da situação do acolhimento aqui, no Estado do Rio de Janeiro. Então vamos pegar os dados do Ministério Público, da Secretaria Nacional de Assistência, do Conselho Nacional de Justiça. Colocar juntos numa mesma mesa e pensar, o que é?”
“Essa é a fotografia que a gente tem da política de acolhimento, até para conseguirmos entender melhor o todo e poder saber quais as ações que podemos tomar”, afirmou Douglas Lopes, diretor-geral do Instituto Rede Abrigo.
Anderson complementa destacando que os abrigos devem ser lugares de investimento no bem-estar dos menores.
“A importância da iniciativa é problematizar e não entender o acolhimento como um lugar de depósito, mas um lugar onde a criança e o adolescente vão sair melhores do que entraram”, disse o educador social.
Educação
Abertura do Observatório das Políticas de Acolhimento Institucional de Crianças e Adolescentes A
A trajetória de Anderson começou a mudar quando ele recebeu o convite para se profissionalizar e trabalhar no lugar onde residia.
“Eu fiquei no acolhimento até os 19 anos, quando fui convidado para fazer um curso como educador social. E fazendo o curso eu comecei a trabalhar dentro do abrigo. Nesse abrigo, então, que eu passei a trabalhar, eu também passei a residir. Aí, quando eu saí comecei a pagar um aluguel, casei, e tenho uma filha”, contou.
Após o começo de vida difícil, Anderson chegou aos 41 anos, constituiu a própria família, formou-se em história e fez pós-graduação em pedagogia social para o século XXI. Como parte da equipe técnica que trabalha por soluções para melhorar o acolhimento, ele acredita que o caminho passa pela educação, como a oportunidade que ele mesmo teve.
“O que precisa melhorar é a perspectiva de qualificação profissional para que esta criança e este adolescente permaneça o menor tempo possível nestes acolhimentos. A gente tem uma noção de que a situação dos acolhimentos no Estado do Rio às vezes não é boa. Falta ajuda financeira para que os abrigos tenham melhores condições de lidar com essa criança”, afirmou Anderson.
Ele também sugere repúblicas para abrigar os jovens que saem dos locais de acolhimento.
“A gente precisa muito de uma república. Como esse adolescente completa 18 anos, ele precisa ir para algum espaço”, disse o educador.
Anderson Damião destaca que outro objetivo de seu trabalho é ampliar o debate sobre o acolhimento de menores no Rio.
“A gente precisa desenvolver projetos, a gente precisa trazer a sociedade civil para a construção deste espaço. Nós evoluímos. Mas a gente precisa evoluir mais ainda”, finalizou.
Fonte: G1
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