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A vitória do Fortaleza envia uma mensagem de boas práticas ao futebol brasileiro

Por que deveríamos esperar que o Corinthians fosse vencer o Fortaleza e chegar à final da Sul-Americana? Na realidade, havia poucos argumentos para sustentar esta expectativa: a qualidade individual de alguns jogadores, ainda que não vivam o melhor momento de suas carreiras; o peso da camisa; ou mesmo a imprevisibilidade que caracteriza o futebol. Mas o mesmo esporte que sabe ser cruel, por vezes indomável, também sabe ser justo. No gramado do Castelão, havia dois clubes opostos em organização, projetos esportivos, responsabilidade com suas finanças, ideias, capacidade de fazer o melhor time possível sem gastar nada além de seus recursos… Todas as virtudes em relação a estes temas estavam de um lado só, e é saudável para o futebol brasileiro que o representante do país na decisão do dia 28 de outubro seja o Fortaleza.

Aliás, gera natural curiosidade saber como alguns dirigentes do futebol brasileiro irão interpretar a vitória do Fortaleza. Algo que, diga-se, não é obra de uma temporada, ou de um jogo: este é um clube que em 2017 jogou a Série C; um ano depois ganhou a segunda divisão; em 2019 conquistou o Nordeste para, em seguida, estrear em competições sul-americanas; depois foi quarto lugar no Brasileiro e semifinalista da Copa do Brasil de 2021; em 2022 estreou na Libertadores e agora fará sua primeira final continental. É possível que apareça quem trate este Fortaleza como um fenômeno isolado, talvez seja mais confortável enxergar assim. O mais construtivo é entender que este é um clube modelo.

Mosaico do Fortaleza na semi da Sul-Americana — Foto: Matheus Amorim / Fortaleza EC
Mosaico do Fortaleza na semi da Sul-Americana — Foto: Matheus Amorim / Fortaleza EC

Capaz de fazer muito com pouco, o Fortaleza foi ano a ano ampliando receitas graças ao sucesso esportivo. Hoje, é capaz de duelar no mercado por jogadores cobiçados por clubes do tradicional grupo dos “12 grandes”. Mas com uma diferença em relação a alguns concorrentes: o faz com responsabilidade. Cumpre compromissos, recolhe impostos, tem uma dívida que, no fim de 2022, não chegava a R$ 65 milhões, menos de um quarto de sua arrecadação anual. A ascensão do Fortaleza se dá num ambiente em que o “doping financeiro” ainda é uma prática: há quem contrate como se não houvesse amanhã e não cumpra compromissos, gerando uma competição desigual com equipes que seguem as cartilhas das boas práticas, como o Fortaleza.

O resultado da organização fora de campo se reflete no desempenho esportivo. Rogério Ceni ficou quase três anos no clube. Juan Pablo Vojvoda está perto dos dois anos e meio.

Em quase tudo, a semifinal da Sul-Americana reunia realidades opostas. Mano Menezes, o quarto treinador corintiano em 2023, fazia seu primeiro jogo à beira do campo, menos de uma semana após ser contratado. Sob seu comando, um elenco envelhecido em alguns setores, desequilibrado em muitos aspectos, produto de um clube que fez apostas altas de mercado, combinando contratações caras com vendas emergenciais. A dívida está acima de R$ 1 bilhão, quase uma vez e meia o faturamento anual do clube. Em 2022, o Corinthians arrecadou R$ 737 milhões, perto de três vezes o faturamento do Fortaleza. Mas é esportivamente muito mais pobre do que o seu adversário na semifinal continental.

Neste contexto, não deveria surpreender que o gramado do Castelão fosse palco para um claro domínio do Fortaleza, num jogo que retratava dois times opostos também em estrutura coletiva – resultado de contextos tão antagônicos. O Corinthians até teve a primeira grande chance. A saída de bola com Moscardo e Maycon atraia um dos volantes do Fortaleza. Ora sobrava algum espaço às costas deles, ora havia tempo para um lançamento em profundidade. Maycon achou Yuri Alberto, que não conseguiu fazer o gol. E o Corinthians raramente voltaria a aproveitar as brechas.

No mais, o Fortaleza via Caio Alexandre e José Welison ganharem duelos no meio-campo e atacava bem pelos lados. Terminou o primeiro tempo com 12 finalizações contra quatro, embora tenha construído sua vantagem no início do segundo tempo. Primeiro, quando Yago Pikachu bateu Fábio Santos para o primeiro gol, após uma série de duelos vencidos pelo ataque do Fortaleza. Depois, quando Tinga cabeceou sem ser incomodado para o 2 a 0. Em dez minutos de segunda etapa, o duelo estava praticamente encerrado.

O Fortaleza viverá, no dia 28 de outubro, a maior ocasião de sua história. Seja qual for o resultado, os 90 minutos da final da sul-americana serão um emblema de sete temporadas de uma ascensão realizada degrau por degrau.

Fonte: Globo Esporte


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