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Anderson Silva por Rodrigo Minotauro: “Ele me dizia em qual round ganharia a luta. E ganhava!”

Rodrigo Minotauro acompanhou como poucos a carreira de Anderson Silva. Foi ele quem não deixou o amigo se aposentar quando o Spider estava desiludido com a profissão. Com o apoio de Minotauro, ele seguiu lutando, chegou ao UFC e o resto desta história todo mundo conhece.

Perto de vê-lo fazendo a última luta de sua carreira, Minotauro relembrou, em entrevista ao Combate.com, a importância de Anderson no esporte e como se impressionou com ele em várias ocasiões.

– Anderson Silva pra mim é o maior ídolo do esporte e do UFC. Não só dos últimos tempos, mas de todos os tempos. A importância que ele teve para divulgar o esporte com golpes diferenciados. A gente pode ver aquele nocaute em cima do Vitor Belfort, aquilo que ele fez com Forrest Griffin, a luta com Chael Sonnen, como na primeira onde ele lutou com a costela quebrada e venceu. E uma coisa que o Anderson tinha era que ele me dizia em qual round ganharia a luta. Contra o Vitor, aluguei um carro em Vegas, peguei ele num shopping e fui levar ele pra luta. Ele falou: “Vou ganhar no primeiro round e vai ser assim, assim e assim”. Descreveu exatamente como aconteceria. Assim como ele descreveu como seria o golpe com o Chael Sonnen, que ganharia no quinto round e que era pra eu ficar tranquilo. Ele já me descreveu vários rounds em que ia ganhar — explica.

Minotauro destaca a relevância que Anderson Silva adquiriu para fora do meio da luta, tornando-se uma personalidade do esporte mundial, conhecido por públicos diversos em qualquer lugar do planeta, algo que compara ao pugilista Mike Tyson.

– Uma vez eu fui nas Maldivas, aí fui pra uma outra ilha, que era micro, aí um vendedor de côco olhou pra minha orelha e perguntou: “Você é lutador?”. Ele não me conhecia e falou: “Eu amo o Anderson Silva”. Perguntei se ele conhecia o Neymar, Romário e o Pelé, ele falou que não, mas conhecia o Anderson Silva. A forma como o Anderson Silva difundiu o esporte, acima de vários esportes, acho que ele ultrapassou o limite da luta. Ele virou uma personalidade do esporte. Assim como o Mike Tyson, foi o Anderson Silva. Posso falar isso não como amigo, mas visualizar uma pessoa que a gente tá andando na rua e um cara desce de um andaime pra tirar uma foto com ele no meio da rua. Como ele popularizou o esporte, mostrou a maestria, a beleza do esporte, foi diferenciado.

Minotauro ainda lembra a forma como acompanhou dois momentos cruciais da carreira de Anderson. Primeiro, a luta contra Chael Sonnen, em agosto de 2010, quando o brasileiro tirou um triângulo da cartola no quinto round, após ser dominado na maior parte da luta pelo rival falastrão. Depois, a derrota para Chris Weidman, em julho de 2013, duelo que tirou do Spider o cinturão peso-médio do UFC.

— Naquela luta com o Sonnen eu tinha confiança do que ele ia fazer porque ele me falou antes, mas na hora que ele fez a finalização no quinto round eu não vi porque estava de cabeça baixa rezando. Então quando a gente é próximo da pessoa, a gente está ali. Posso dizer isso nas vitórias e nas derrotas também. Quando ele lutou com o Chris Weidman ele não falou nada e nesse dia eu fiquei tenso, porque nesse dia ele não falou como seria a luta. Foi uma das únicas lutas na qual ele não falou comigo. A gente fazia camp junto, todo mundo fica tenso. Todo mundo que é próximo quer o melhor pro Anderson. É um cara que vai lutar com 45 anos praticamente. Ele segue lutando com caras mais jovens que ele e mostrando a técnica. Lutou com o Daniel Cormier, que era o campeão da categoria, perdeu, mas fez uma luta perigosa pra ele. Ele sempre enfrentou os melhores do esporte e tem um legado a ser deixado pra nova geração.

Confira outros trechos da entrevista com Rodrigo Minotauro:

Início de trabalho com Anderson
— Pude acompanhar o Anderson desde quando ele começou a treinar com a gente. Mas antes disso ele já tinha feito uma carreira sólida, tinha sido campeão do Shooto no Japão. Eu já acompanhava muito o Anderson Silva. Ele lutou com um amigo nosso, ele ganhou do Roan Carneiro, o Jucão, que era da nossa academia. E pra essa luta com o Roan Carneiro eu ajudei a treinar o adversário dele, então comecei a seguir o Anderson naquela oportunidade. Comecei a virar fã dele, mesmo lutando com meu amigo. Eu sabia que ele era um cara perigosíssimo. Antes de conhecer o Anderson eu conheci o pai dele, o Juarez, em um evento. A gente começou a falar sobre o Anderson, e por coincidência ele começou a dar aula numa academia que eu tinha em Curitiba, foi meu professor de jiu-jítsu. Meu primo me ligou e falou que ele estava dando aula lá, eu peguei um voo até Curitiba e a gente fez uma amizade. Desde então ele começou a treinar conosco e deu uma grande guinada na carreira dele. Ele já era bom de muay thai, ficou mais forte, começou a fazer preparação com o Rogério Camões, começou a fazer mais o jiu-jitsu que a gente treinava, derivado da Carlson Gracie, foi pra Brazilian Top Team (BTT) conosco, fez parte da Team Nogueira e de lá a carreira dele deu uma guinada.

Evolução de Anderson em eventos internacionais
Primeiro ele foi pro Cage Rage, na Inglaterra, depois levamos pra Coreia onde conquistou um cinturão também e ganhou duas lutas. Foi pro Havaí, onde ganhou outras lutas também e depois foi pro UFC. Ele ganhou do Chris Leben, e na segunda luta já estava fazendo uma disputa de cinturão. Foi meteórica a passagem dele. Mas ele tinha todo o background do Pride, da Coreia. Ele não foi um cara formado só nos Estados Unidos pelo UFC. Ele passou pelo Shooto no Japão, pelo Pride, foi na Coreia, foi na Inglaterra, no Havaí, deu a volta ao mundo antes de chegar no UFC. Ele chegou ao UFC como um lutador experiente, com mais de 30 anos de idade. É um ídolo. Deu a volta ao mundo, ganhou quatro cinturões, tem um legado e não é a toa que é um dos lutadores mais populares do esporte.

Método e persistência nos treinos
— O Anderson deixou uma marca de perseverança. Quem conhece o Anderson intimamente como eu, sabe que ele era o último cara a sair da academia, assim como o Michael Jordan, o Oscar Schmidt… Eu lembro da funcionária da academia brigando comigo porque ela tinha que apagar a luz e o Anderson estava batendo saco. E aquela joelhada que ele dava na luta e muita gente falava que era sorte, não tinha sorte. Ele repetia aquilo mil vezes todos os dias até chegar a perfeição. Ele é um exemplo de perseverança, de um cara que mudou a vida dele através do trabalho. Pra quem conhece bem o Anderson Silva, olha o guarda-roupas dele. As roupas são todas dobradas, organizadas por cores, e ninguém faz isso. Ele coleciona brinquedos e eles estão lá por tamanho, por cores, por época. Ele é todo metódico. E assim é na vida profissional dele, na vida familiar. É um cara família, tem seis filhos em casa, está sempre recebendo gente. Super amigo. Os camps dele são maravilhosos. Tem uma interação com as pessoas. É super amoroso. Quem o conhece intimamente como eu fala que é um grande mestre, um grande líder, um grande exemplo de organização e superação.

Encontro de Jon Jones com Anderson Silva
— Olha como eu conheci o Jon Jones. Eu estava numa luta e um fã me parou na plateia e ele não lutava no UFC, era um garoto iniciante e o sonho dele era conhecer o Anderson Silva. Era um garoto magro, moreno, alto, era o Jon Jones. Fui levar o Jon Jones pra conhecer o ídolo dele, que era o Anderson Silva. Chegando lá o Jon Jones estava emocionado, e lá me falaram que o garoto era bom, que seria campeão do UFC, e fui levar o Jon Jones pra conhecer o Anderson Silva. E assim foram vários outros lutadores que foram inspirados pelo Anderson Silva. Ele é um cara que inspira muito outras gerações, como foi esse caso do Jon Jones, e vai continuar inspirando essa nova geração brasileira, que está muito bem.

Luta de despedida
— O Anderson veio de muitas lesões ultimamente. Teve aquela contusão seríssima na tíbia dele, onde quebrou a perna. Ganhou algumas lutas, perdeu outras. Treinar às vezes é doloroso pra ele, mas ele está em excelente forma física, apesar da idade estar mais avançada. É um super atleta, um cara muito experiente, tem sim carta na manga pra vencer essa luta. Tem poder de punch, poder de nocaute, tem boas joelhadas, bons chutes, uma forma física exemplar. É um cara que come muito bem, descansa muito bem, e técnica tem de sobra. A gente vê o Uriah Hall do outro lado, que é um cara perigosíssimo, que tem excelentes nocautes, chutes giratórios, mãos pesadas, e que está sempre lutando com os tops da categoria como já lutou com o Borrachinha e outros grandes lutadores. Ele é um adversário duro, mas o Anderson tem jogo suficiente pra lutar. Eles estiveram pra lutar no UFC em Curitiba, mas o combate não aconteceu, o próprio Anderson se machucou pra aquela luta. É uma luta esperada. O Uriah ja se preparou pra lutar com o Anderson, o Anderson já se preparou para lutar com o Uriah. Essas lutas que ficam no DNA da pessoa. É uma luta boa e acho que o Brasil merece. É pra todo mundo parar, ligar a TV e apoiar o ídolo nesse momento.

Anderson x Georges St-Pierre
— A gente não sabe se ele tem só essa luta, se tem mais, mas o legado já foi feito. Uma luta que eu gostaria de ter visto era dele contra o Georges St-Pierre. Dois ídolos máximo do esporte. O GSP já foi campeão dessa categoria também. Já teve rumores de que ele subiria ou o Anderson desceria de peso. Acho que seria a luta perfeita pra ele fechar a carreira.

UFC Hall x Silva
31 de outubro de 2020, em Las Vegas (EUA)
CARD PRINCIPAL (20h, horário de Brasília):
Peso-médio: Uriah Hall x Anderson Silva
Peso-pena: Bryce Mitchell x Andre Fili
Peso-médio: Kevin Holland x Makhmud Muradov
Peso-pesado: Maurice Greene x Greg Hardy
Peso-leve: Bobby Green x Thiago Moisés
CARD PRELIMINAR (17h, horário de Brasília):
Peso-leve: Chris Gruetzemacher x Alexander Hernandez
Peso-galo: Adrian Yanez x Victor Rodriguez
Peso-médio: Sean Strickland x Jack Marshman
Peso-meio-médio: Cole Williams x Jason Witt
Peso-meio-pesado: Dustin Jacoby x Justin Ledet
Peso-mosca: Cortney Casey x Priscila Pedrita
Peso-galo: Miles Johns x Kevin Natividad

Fonte: Globo esporte


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