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De criatura a criador do próprio destino: como Thiem se tornou campeão do US Open

Poucas frases são mais eficientes para resumir o processo de transformação de Dominic Thiem, uma criatura fruto de “experimento” que ganhou consciência própria e vai se tornando um monstro racional do tênis.

O tenista austríaco de 1,85m surgiu para o público no mundo do tênis aos 22 anos, em 2016, após derrotar Rafael Nadal na semifinal do ATP 250 de Buenos Aires. Uma vitória após salvar match point sobre o rei do saibro. Batalha daquelas de levantar o público. Foi o cartão de boas-vindas.

O resultado não foi fruto de uma semana mágica. Pelo contrário. Fez um primeiro semestre fantástico e atingiu a semifinal de Roland Garros. Entrou no top 10 e dali não mais saiu.

A história do Thiem, no entanto, parecia um tanto quanto desinteressante. Não era o mais simpático, não passou dificuldade financeira, não era o prodígio juvenil. Grande engano.

Seu treinador de longa data Gunter Bresnik descreveu em detalhes o “Método Dominic Thiem”. No livro, Bresnik revelou uma relação de criador-criatura desde que o menino tinha 11 anos numa riqueza de detalhes assustadora.

Não era um talento natural. Não era o mais rápido, o mais forte ou o que aprendia mais rápido os golpes. Tinha o mais importante: o DNA do tênis e a habilidade de nunca esquecer o que fora ensinado na quadra.

O treinador beirou a experimentação em seu pupilo, fazendo-o cortar madeira, testando exercícios arbitrários e até a jogar hóquei no gelo, esporte que Thiem odiava, mas que servia, segundo o técnico, para gerar medo. Queria transformar o garoto dócil num atleta com sangue nos olhos.

Por muitas vezes não importavam os resultados. O criador queria transformar a criatura num soldado aceitasse sofrer e atirasse bombas com a raquete como nenhum outro. Só que Thiem nunca foi esse soldado de armadura de ferro que Bresnik sonhou em montar.

O experimento deu certo e o levou muito longe: top 10 e final de Grand Slam. Mas a criatura ganhou eventualmente consciência própria. Dezesseis anos depois, em 2019, Dominic Thiem encerrou a parceria com Gunter Bresnik, que era seu técnico e empresário. Os detalhes do contrato nunca foram revelados, mas não foi um término amigável.

O processo de autoentendimento de Thiem foi gradual e teve um empurrão da própria escolha de Bresnik de trazer adições do time para tornar seu pupilo um tenista mais completo. Em 2015 chegou Alex Stober, um mágico da fisioterapia. Dois anos depois, incorporou o técnico Galo Blanco e, em 2018, o campeão olímpico Nicolás Massu, ouro em 2004.

— September 14, 2020
Sua ideia era ser o cérebro da operação de longe. Não queria mais viajar, quis delegar suas funções e focar no gerenciamento da carreira de Dominic Thiem.

As chegadas foram frutíferas, mas tinham opinião próprias. Me surpreendeu, por exemplo, quando Stober me disse em entrevista, em 2017, com um certo tom de sarcasmo “não sou responsável pelo calendário dele. Basicamente sei o que ele vai jogar e tenho que trabalhar com isso”.

Sob a tutela de Bresnik, Dominic Thiem tinha um e apenas um objetivo muito claro: Roland Garros. Seria a etapa mais natural para aquele cotado como “herdeiro de Rafael Nadal”. Era como se o ano acabasse depois de junho.

Não ajudava que seu treinador era empresário. O conflito ficava claro com escolhas inexplicáveis, fosse com vários torneios inexpressivos em sequência ou um combo inexplicável Roterdã (indoor), Rio (saibro outdoor), Acapulco (dura outdoor), episódio em que o próprio treinador assumiu no mesmo ano que fez um “calendário de m****”.

Fazendo uma analogia frankensteiniana, é como se a criatura tivesse ganhado consciência e tivesse enfim compreendesse que poderia tomar decisões. A primeira delas foi se voltar contra seu próprio criador. Bresnik não era mais necessário. O saibro não era mais suficiente. O descontentamento pontual e pouco perceptível acumulou-se a ponto que se tornou insustentável.

Fonte: Globo esporte


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