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Doping de Bia Haddad: médicos alertam sobre riscos de substância e não creem em erro de farmácia

A suspensão provisória de Bia Haddad por doping, em teste que flagrou duas substâncias anabolizantes em seu corpo, pegou muita gente de surpresa na última terça-feira. Primeiro pelo histórico da tenista, que jamais teve problemas com dopagem nos últimos anos, em que foi testada 11 vezes somente em 2018. Segundo porque os SARMs, itens proibidos pela Wada e não homologados por agências sanitárias, representam um enorme risco a quem faz uso como relatam médicos especialistas na área.

As substâncias encontradas no corpo de Bia Haddad são SARM S-22 e SARM LGD-4033, ambas variações do SARM, uma sigla para modulador seletivo do receptor de androgênio. E o que isso significa na prática? Ele tenta imitar o funcionamento da testosterona, o hormônio sexual masculino, no corpo de uma pessoa, evitando a perda de massa óssea e muscular e, com isso, ganhar performance física.

Porém, a popularidade dos “SARMs” veio das academias. Sobretudo os homens, buscando resultados melhores e efeitos mais visíveis, que encontraram nessa substância uma forma de usar esteroides sem “chamar atenção”.

– Quando você vê uma pessoa na academia que está tomando “bomba” você reconhece. Por que? Porque ela está dentro do padrão estigmatizado, com características masculinas por conta do efeito virilizante dos esteroides anabolizantes. E essas substâncias (SARM LGD-4033 e SARM S-22) teoricamente reduz drasticamente esse efeito colateral. Ela tem o efeito anabolizante e um menor efeito virilizante. Ou seja, é mais fácil de tapear – explicou o cardiologista Fabrício Braga, também coordenador do Laboratório de Performance Humana do Rio de Janeiro.

Apesar do uso difundido em academias e entre fisiculturistas, além de ser facilmente encontrado em lojas na internet, os SARMs tem seu uso não recomendado pelos médicos. Nenhuma grande empresa da indústria farmacêutica produz essas substâncias e ela jamais foi aprovada por agências reguladoras, seja no Brasil, com a Anvisa, nos Estados Unidos, com a FDA (Food and Drug Administration), ou na Europa, com a EMA (European Medicines Agency).

– Ninguém submeteu essa substância para aprovação para a Anvisa e simplesmente eles fecham os olhos para essa situação, quando deveriam proibi-la. É como você pensar em drogas ilícitas como heroína, cocaína. Ninguém vai pedir permissão para agência regulatória, mas obviamente elas são proibidas. Precisava sim de uma resposta da Anvisa para proibir isso. Até porque como é que pode ter acesso em nosso país com medicações que não tem registro na Anvisa, mas que você consegue comprar pela internet? É um grande problema – afirmou Alexandre Hohl, endocrinologista e vice-presidente Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Segundo explicaram os médicos consultados pela reportagem, os SARMs causam mais danos do que geram benefícios aos seres humanos e, por esse motivo, elas não são prescritas por médicos ainda que em casos extremos. Apenas em casos de hipogonadismo (homens com deficiência documentada, clínica e laboratorial, de testosterona), haveria uma possibilidade de uso dessa substância, mas há alternativas no mercado com menos riscos para as pessoas. Em mulheres, não há qualquer possibilidade de prescrição, como seria o caso de Bia Haddad.

– Não existe nenhuma indicação terapêutica de uso de esteroide anabolizante para mulher, nenhuma! Não existe nenhum motivo para se tomar isso por qualquer tipo de doença. Tem uma indicação rara, questionável, que são mulheres com síndrome climatérica exuberante, com a função sexual muito ruim e depressão. Na verdade essa condição não tem nem nome ainda. Então, não existe nenhum indicação para uma mulher jovem fazer reposição terapêutica de esteroides – garantiu Fabrício Braga.

E qual seriam os riscos para o ser humano? Os poucos estudos até hoje e um maior número de testes controlados dessas substâncias fazem com que os efeitos colaterais ainda sejam uma incógnita para a medicina. No entanto, há um consenso médico de que são prejudiciais à saúde de quem faz uso desse suplemento.

– Entenda que como não há tantos estudos, não temos certeza de todos eles (efeitos colaterais), basicamente passa por fígado, rim e provavelmente coração. São potencialmente danosos. E pessoas que utilizam isso – e aqui não estou falando dessa atleta específica – eles ficam meio cegos. Só olham o possível benefício e tapam os olhos para os riscos – afirmou Hohl.

“Contaminação cruzada” em farmácia é improvável
O tênis brasileiro teve outros três casos recentes de dopagem e de punição para os atletas. Foram eles Marcelo Demoliner, Thomaz Bellucci e Igor Marcondes, que levaram três, cinco e nove meses de suspensão, respectivamente. Em todos os anteriores, a substância envolvida tinha sido a hidroclorotiazida, um diurético, e as alegações foram todas que haviam sido prejudicados por contaminação cruzada em farmácias de manipulação. Ou seja, eles pediram uma certa fórmula e quem as manipulou entregou com traços do diurético. As punições foram diferentes pela “reincidência” entre atletas do mesmo país.

O caso de Bia Haddad, no entanto, é diferente. Enquanto a hidroclorotiazida e diuréticos são facilmente encontrados em farmácias de manipulação e permitidos para uso à população em geral, os SARMs não podem circular nesses lugares – ao menos no Brasil. Portanto, a chance de um local autorizado estar utilizando substância não regulamentadas poderia gerar sérios problemas e até mesmo o fechamento do estabelecimento por parte da Anvisa.

– Os diuréticos são muito utilizados na medicina – e aqui estou falando da parte séria – como substância que pode ajudar no controle de pacientes com hipertensão arterial sistêmica, com insuficiência cardíaca, em algumas doenças com ganho de líquido inadequado como edema agudo de pulmão e por aí afora. Totalmente diferente do SARM, que não deveria existir, não deveria estar em circulação, não deveria ter, estar na farmácia. Então, contaminação cruzada por SARM é praticamente impossível de existir (…) uma vez que não há registro na Anvisa. Essa é a lei. Se existe isso, eu não sei, mas é totalmente ilegal. Caberia uma denúncia para a vigilância sanitária do município ou para a Anvisa, em Brasília. É uma situação que se você pergunta: “É possível?”. Sim, é possível. É legal? Não – disse Alexandre Hohl.

Até o fechamento desta matéria, Bia Haddad não se pronunciou sobre o assunto e nem ela ou seus advogados divulgaram qual seria sua defesa ou alegação no caso de doping. A tenista foi flagrada em teste feito na cidade de Bol, na Croácia, quando ela disputou o torneio local entre os dias 3 e 9 de junho.

Fonte: Globo esporte


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