A declaração logo no primeiro minuto da entrevista ajuda a decifrar quem é Rodrygo dentro e fora de campo.
O estilo despojado para se vestir não o impede de ter a discrição como uma das principais características. E a fala mansa e pausada contrapõe a convicção com que aborda temas sensíveis como a pressão por defender a maior seleção e o maior clube do mundo, racismo e paternidade.
Abre Aspas: Rodrygo relembra pênalti perdido na Copa e se vê “cada vez mais protagonista”
A trajetória precoce ajuda a explicar o equilíbrio nos posicionamentos. Apelidado de raio por ser a joia de brilho mais recente na dinastia que já teve Pelé e Neymar na Vila Belmiro, Rodrygo aprendeu desde muito cedo que a brincadeira ficaria para depois. Aos 11 anos, vivia a expectativa de sucesso nas categorias de base, e pouco mais de uma década depois pode falar que cumpriu boa parte dela.
Durante as férias no Brasil, o atacante que assumiu recentemente a camisa 11 do Real Madrid recebeu o ge para uma entrevista ao “Abre Aspas” sem filtros. Tema livre!
Por mais que isso representasse também falar muito sobre os outros: Ancelotti, Fernando Diniz, Vini Jr, racismo e a relação com os filhos gêmeos Rayan e Ravi, nascidos no início de 2022 em episódio que expôs como raras vezes sua vida pessoal.
Títulos: Mundial de Clubes, Liga dos Campeões da Europa, Supercopa da Europa, Campeonato Espanhol, Copa do Rei e Supercopa da Espanha.
Campeão de tudo com o Real Madrid com apenas 22 anos, Rodrygo acostumou-se com os holofotes em momentos decisivos. Autor de dois gols na histórica semifinal da Champions vencida pelos Merengues diante do Manchester City, foi às redes também duas vezes na única conquista da última temporada, a Copa do Rei. Mas, por outro lado, viu sua cobrança de pênalti parar em Livakovic na eliminação do Brasil para a Croácia na Copa do Mundo no Catar.
“Fui preparado desde pequeno. Coisas que eram novidade para os meninos da minha idade, eu já sabia como lidar e sair daquilo. Vem daí minha preparação. Aprendo muito com eles (os pais) e sou daquele pensamento: quando ganha, não está tudo certo. Quando perde, não está tudo errado”
Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
ge: Queria começar falando desse Rodrygo todo estiloso que chegou para a entrevista, jaqueta larga, tênis da moda… Em quem você se inspira para se vestir? É algo que você se preocupa?
Rodrygo: – Os jogadores da NBA têm um estilo que eu gosto, jogadores da NFL também… Seguindo nessa linha desses esportes, skatistas, gosto desses estilos. Sempre curti desde o Brasil, mas indo para Europa você abre mais a mente e pensa em coisas novas, vai mudando, e me visto completamente diferente do que era no Brasil. Gostava de andar de skate com os meus amigos quando morava em Santos. Não podia, porque jogava, mas às vezes andava escondido. Via os meninos andando pelas ruas, pelas praças, e achava o estilo legal. Fui seguindo nessa linha e depois evoluindo.
O que você consome em seu tempo livre que conecta com esse estilo de vida? Músicas, séries, livros…
– Escuto muito trap. Gosto muito de música, escuto todos os estilos possíveis, mas trap no momento é o meu preferido. São músicas que falam muito sobre isso, né? Sobre roupas, sobre joias, e me influencia a vestir de certa forma.
O Neymar, por exemplo, recebeu o Jimmy Butler no Brasil durante as férias, tem muita amizade com cantores, artistas… Você também participa desse círculo social?
– Temos bastante amizade com os cantores. Ficamos o dia inteiro escutando, e eles ficam felizes. Sempre mando vídeos para eles e falo: “Olha o que estou escutando”. Vai criando um vínculo, vamos nos conhecendo. Quando estou de férias, gosto muito de ir a show de trap, e vai criando amizades.
Como foram as férias do Rodrygo? Deu para fazer tudo o que queria ou acaba que em alguns momentos a fama limita a exposição?
– Minhas férias foram perfeitas. Não tenho do que reclamar. Foi muito bom passar esse tempo com minha família, meus amigos, poder ir para todo lugar que eu queria e também descansar. A temporada foi bem pesada, com a Copa do Mundo no meio, parecia que jogamos três temporadas em uma só. Ter esse momento de descanso e descontração é muito bom.
– A fama é muito boa, mas tem aquelas questões que todo mundo sabe. Se eu quero ir ao shopping, já não posso. Não que seja uma coisa ruim ter que ficar tirando fotos, mas tem vezes que você está comendo, com o garfo na boca e chega alguém. Tem essas coisinhas, que não são ruins, mas incomodam um pouco. Faz parte, é um precinho que temos que pagar pela fama.
Você consegue definir que preço é esse que tem que pagar desde tão cedo?
– É a parte que a gente mais sente falta, né? De não poder viver o dia a dia normal, sair de chinelo na rua e andar com os parceiros.
“Desde pequeno, sempre apostaram e acreditaram em mim, sempre fui bem falado e sabia da responsabilidade. Estava na escola, tinha um passeio que todo mundo estava animado, e eu não podia ir por ter que treinar. Muito novo já fui abrindo mão e me acostumando. Agora, quando tenho que passar por isso, estou acostumado”
Você consegue lembrar de como era a vida antes de já ser conhecido nas ruas, de ter a responsabilidade de jogar, época em que ainda podia ser criança?
– Eu lembro de quando era bem menor mesmo de jogar bola na rua, ir para escola, treinar, mas ainda sem responsabilidade. Logo depois, com 11 anos, já tinha muita responsabilidade. Consigo lembrar pouco de quando não tinha essa pressão. Não era uma pressão ruim, era uma pressão boa porque eu me divertia e amava o que tinha que fazer.
– Quando eu era pequeno, tinha que morar com a minha mãe e ficar longe do meu pai. Às vezes, batia o arrependimento: “Ah, se for para ficar longe do meu pai, não quero jogar bola, não”. Eu sempre confiei, mas você nunca tem a certeza de que vai virar jogador. Nesses momentos, eu dava uma pensada. Claro que há momento que você não está bem e está triste, é normal da vida. Mas nunca pensei em parar ou largar. Estou fazendo o que sempre sonhei e esse é meu propósito de vida.
Mesmo com toda superexposição, você consegue passar uma imagem mais discreta. Seja no momento de gols decisivos como contra o Manchester City, na Champions, seja no pênalti perdido contra a Croácia, parece não sair de uma zona de equilíbrio. É assim mesmo ou na intimidade se permite comportamento mais aflorados?
– Sempre tem no íntimo esses momentos, mas tenho um equilíbrio bom que veio dos meus pais. Minha mãe em casa ensinando todos os dias e do meu pai por ter sido jogador e eu acompanhá-lo nos clubes. Às vezes, alguma dificuldade que temos com torcida e imprensa eu já vi meu pai passar por tudo isso. Então, fui preparado desde pequeno. Coisas que eram novidade para os meninos da minha idade quando eu era mais novo, eu já sabia como lidar e sair daquilo. Vem daí minha preparação. Aprendo muito com eles e sou daquele pensamento: quando ganha, não está tudo certo. Quando perde, não está tudo errado.
Você consegue mensurar o que sentiu nesses dois momentos em um mesmo ano: contra o Manchester City e contra a Croácia?
“Não sei nem explicar, foi o pico máximo de alegria e o pico máximo de tristeza. Só assim para definir”
O pênalti perdido na Copa é o momento mais triste da sua vida?
– Da carreira, sim. Era o sonho de todo mundo ganhar a Copa do Mundo. Sei que tenho muitas Copas para disputar, mas ali era o nosso sonho e da maneira que foi, como tomamos o empate e depois os pênaltis. Foi com certeza o momento mais doloroso da carreira. Sempre vou seguir adiante, independentemente das dificuldades que aparecerem. É normal.
Aos 22 anos, Rodrygo lamenta pênalti perdido contra a Croácia: “Pior momento da carreira”
– Todos os grandes têm um fracasso na carreira, mas, como o Antetokounmpo falou, não vejo como um fracasso e, sim, um passo a mais. Todo mundo tem que passar por esse processo. Nada é fácil na vida e ninguém tem a história perfeita. Levei dessa forma. Claro que no dia você fica com aquela tristeza, aquela angústia, mas sempre estive rodeado de pessoas boas, que me passaram coisas boas e eu fui entendendo. Hoje, tenho na cabeça que eu vou voltar e uma (copa) eu vou ganhar pelo menos.
O que a Copa tem de tão especial na vida de um jogador, é possível definir esse sentimento?
– Não sei explicar e realmente é muito diferente. Já joguei uma semifinal, uma final de Champions, mas a Copa é um algo a mais. É muito bom saber que você vai jogar e todo seu país está torcendo por você. A semana antes do jogo é diferente, com muita imprensa acompanhando. Quando tem muita imprensa, tem alguma coisa boa. A única coisa que consigo falar é que é diferente. Não tem explicação, só vivendo para saber.
Além de tudo isso, é o único título que falta na sua carreira. Já levantou todos os troféus possíveis com o Real Madrid…
– Com certeza. Ainda mais por já ter conquistado todos os títulos possíveis no meu clube com apenas 22 anos. Quero voltar a ganhar tudo que é possível novamente no meu clube e com a Seleção ganhar a Copa. É o sonho de todo mundo. Sempre será o meu sonho principal, mais ainda agora por ser o único que falta.
O que torna o Real Madrid tão diferente dos demais clubes?
– O Real Madrid é muito grande. Eu esperava muitas coisas, mas chegando lá eu vi que é o triplo do que esperava. É algo fora do normal, só estando lá dentro para sentir e explicar. Sempre foi o meu sonho, sempre falei para todo mundo que um dia ia jogar lá. Estar lá hoje e ter ganhado tudo, é algo fora do normal. A forma como viramos todos os jogos no nosso título da Champions mostra um pouco o tanto que é diferente.
E tem uma história curiosa da escolha pelo clube, não é? A gente ficou sabendo que você teve a possibilidade de escolha: Real x Barcelona?
– Estava praticamente tudo certo com o Barcelona, só faltava assinar, e eu perguntava ao meu pai: “Nada do Real Madrid?”. Chegavam proposta de todos os times e nada do Real. Aí, eu pedi para esperar o fim de semana porque teríamos um jogo com o Vitória.
“Eu falei: “Eu vou deitar nesse jogo, e o Real Madrid vai ver”. Meu pai ficou bolado comigo: “Você está de sacanagem? A gente com uma oferta dessa do Barcelona na mesa. Você vai jogar com o Messi e quer que eu espere. Tá de sacanagem?”. Foi e esperou, porque o Barcelona tinha um problema com o Santos também e não conseguia assinar”.
Santos goleia Vitória com show de Rodrygo
– Fui para o jogo com o Vitória, fiz três gols, dei uma assistência, a gente ganhou por 5 a 2, e durante o jogo o Real Madrid ligou para o meu pai e nem precisou fazer a proposta. Só perguntaram se eu queria ir, e meu pai já sabia minha resposta. No dia seguinte, eu estava de folga, jogando video-game, estava com minha mãe e meu pai saiu de manhã sem avisar nada. No fim da tarde, ele chegou a Santos, entrou em casa, passou por mim e pela minha mãe na mesa sem falar com ninguém. Foi direto no meu quarto e tinha uma camisa do Real Madrid e outra do Barcelona. Como estava tudo certo, ele já tinha viajado para visitar as instalações do Barcelona e trouxe, do Real eu já tinha.
Ele pegou as duas camisas, jogou em cima de mim e disse: “Agora, você escolhe”. Eu fiquei sem entender, mas não tinha nem o que pensar, era o Real Madrid.
De onde vem essa certeza pelo Real?
– Não sei, mas eu sempre gostei. Um pouco pelo Cristiano também. Quando eu tinha seis anos, meu pai foi fazer uma excursão e trouxe uma camisa do Real para mim. Acho que foi daí. Depois, fui crescendo e gostando.
Como é o dia a dia no clube? A pressão, as cobranças, a exposição…
– É muita pressão da imprensa para cima da gente. É muito grande. Não sei explicar. Sinto que os jornalistas que torcem para o Real apoiam bastante, e os que não torcem ficam o tempo inteiro macetando, dando no meio da gente. Aí, junta a Espanha inteira, a Europa inteira contra o clube. O Atlético de Madrid ninguém vai ficar batendo sempre, mas o Real quem não torce está sempre contra. A gente sente que é um pouco odiado. Temos a nossa torcida, mas para quem não torce não é um clube qualquer, é odiado.
Por algum período no início, a imprensa espanhola tentou criar uma rivalidade entre Rodrygo e Vinicius, que vocês parecem ter conduzido bem.
– Foi muito tranquilo. As comparações já faziam desde que eu jogava no Brasil também com quem jogava no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo… Nós nos encontrávamos nas seleções de base e éramos amigos. Buscamos o melhor para o Real e jogamos em posições diferentes, ele na esquerda e eu na direita. É algo que a gente nem fala, só brincando que sempre que vamos dar entrevistas perguntam do outro. Por um lado é chato e por outro é bom por ser sempre lembrado.
Rodrygo posa para foto ao ge — Foto: Marcos Ribolli
Conta como foi a chegada no clube ainda tão jovem e já trabalhar com craque consagrados na história do futebol. Qual foi o impacto inicial? Qual a maior dificuldade?
– Foi tenso. Eu fiquei bem nervoso na hora de ver os caras, principalmente o Zidane. Quando encontrei, foi um dos momentos que deu uma baqueada, um pouco de medo, mas ele foi super gente boa e me tratou super bem. Tinha o Marcelo e o Casemiro, que estavam há muito tempo e com muita moral no clube. Facilitou a adaptação no vestiário, mas havia as dificuldades dentro de campo, de jogar pouco, de ir para o Castilla e voltar.
– Lembro que estreei com gol e no outro jogo achei que ia ao menos para o banco, e nada. Voltei para o Castilla. Depois, fiz hat-trick na Champions, achei que ia jogar sempre, e no jogo seguinte fiquei no banco e nem entrei. São essas dificuldades porque eles queriam ter muito cuidado para não perder a cabeça, mas eles viram que eu era tranquilo, que não ia mudar nada, e foi melhorando.
Você passou por algo parecido na Seleção de ter que exercitar a paciência para conquistar seu espaço…
– Eu entendia que era um processo que eu tinha que passar porque tinham caras que chegaram antes e era normal pela hierarquia, mas por outro lado pensava que estava no Real Madrid e precisava jogar. Mas sempre respeitei todo mundo e sinto que estou cada dia mais protagonista. Ainda mostrei muito pouco de tudo que eu posso.
E como você se vê no próximo ciclo de Copa do Mundo? Chegou a hora de assumir um papel de protagonista e dividir essa responsabilidade que na última década esteve tanto nos ombros do Neymar?
– Vai ser diferente não só na Seleção como no clube também. A cada temporada eu vou ter mais pressão e protagonismo, é o que eu quero e busco.
“Entendo a minha importância por jogar no maior clube do mundo. As pessoas esperam de mim algo diferente. Sei o quanto preciso me preparar para estar bem e responder a altura do que esperam de mim”
É um ciclo em que a CBF confia que será conduzido a partir do meio do ano que vem por Carlo Ancelotti. O que você sabe que pode antecipar sobre essa possibilidade?
– Assim como vocês, também não sei nada que se passa. Sei que já brincamos muitas vezes com o Ancelotti sobre assumir a Seleção ou não. Entramos de férias, vieram os amistosos quando começaram a falar mais o nome dele. Não sei o que ele pensa, mas o foco dele é o Real Madrid. Ele vai aproveitar a temporada e depois não sei. Agora, temos treinador, temos o Diniz. Não sei o que vai acontecer depois, mas vou aproveitar o Ancelotti no Real e o Diniz na Seleção.
Parceiros no Real Madrid, Rodrygo elogia Ancelotti na Seleção, mas vê diferenças com Diniz
Qual foi sua reação com o anúncio do Fernando Diniz por apenas um ano?
– Fui pego de surpresa pelo Diniz estar no Fluminense, mas normal. Acredito que ele vá fazer um grande trabalho por tudo que falam dele. Acho que pode encaixar muito com a Seleção. Normalmente, os jogadores que já trabalharam com ele elogiam a forma de jogo. Meu pai já jogou contra times do Diniz e diz que é chato jogar contra eles. Com os jogadores que temos para ele colocar o plano dele, tem tudo para dar certo. Mas é aquilo, é só por um ano e não dá para falar muito.
Dá para traçar um paralelo e encontrar semelhanças no estilo de jogo do Diniz e do Ancelotti?
– São estilos um pouco diferentes. O Ancelotti é mais direto, roubar a bola e contra-ataque. Pelas características dos jogadores do nosso time, também temos a bola. O Diniz já é mais de posse de bola o tempo inteiro, tocar, tocar… Todos os treinadores são diferentes. O Ancelotti é mais direto, sempre para frente. Não consigo falar do Diniz, só sei do que vejo em alguns jogos do Fluminense, já joguei contra, mas não posso falar de como é no vestiário.
O que você pode falar do trabalho do Ancelotti no campo, como é a rotina de treinamentos, os pontos principais que ele cuida?
– É um fenômeno. Não ganhou tudo que ganhou à toa. Cuida de fundamento, funcionamento do corpo, como você vai se posicionar. Temos uma tática boa e acho que não precisa trabalhar muito por já ter os melhores do mundo. Não dá para ensinar para o Modric que tem que fazer isso ou aquilo. Mas trabalhamos bem a parte tática e com a qualidade fica mais fácil.
E como é o trato no dia a dia, a resenha? São muitos relatos de ótimo relacionamento com jogadores brasileiros…
“Ele sempre conta dos jogadores brasileiros que treinou. Fala que o Pato foi dos melhores que trabalhou, que sentiu uma conexão muito boa. Kaká também, Ronaldo, Ronaldinho… Com a gente é igual, você sente verdade, sente que ele gosta da gente e faz as coisas para ajudar no nosso crescimento. Ele leva o vestiário de uma forma muito boa, e esse é o segredo do nosso time, mais até do que a parte tática”
– Ele é bom nisso, muita gente fala e nós lá dentro podemos provar. Estamos colocando mais para dançar. O pessoal gosta e ele está entrando no meio. Pior que nem são as músicas brasileiras, são mais músicas de tiktok, as músicas espanholas que colocamos no vestiário. Está sempre falando com um, com outro, no nosso meio. É muito importante isso. Às vezes, temos a imagem de treinador fechado, distante, sem conversa com os jogadores… Acho que isso faz a diferença no trabalho.
Bastidores da entrevista de Rodrygo ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Qual a primeira pergunta que você quer fazer para ele?
– Se vai ou não para a seleção, né?! Se bem que nem vai dar para perguntar, lá o bicho pega, é muito sério, ele tem uma responsabilidade muito grande sendo técnico do Real Madrid. Estamos muito animados com a temporada, com os reforços. É aproveitar ele lá mesmo.
Até que ponto toda essa situação pode interferir na temporada do Real Madrid no seu ponto de vista?
– Vai ser um pouco complicado. Acho que o Ancelotti até já deu entrevistas falando que não está sabendo de nada. As pessoas confundem como se ele tivesse dado sim, confirmado, e nem foi isso. Eu não sei o que realmente aconteceu, mas pode ser uma temporada complicada. Quando a gente perder um jogo, vão falar que o treinador está pensando em outra coisa. Sabemos que não é isso, mas é o que vão falar. É bom ele deixar isso claro de que qualquer coisa vai ser só depois do contrato dele.
Tudo isso passa por um personagem central da história do Real Madrid, que é o Florentino Pérez. Como é a relação com ele?
– É da forma que tem que ser, né?! O Real sempre acima. Ele tem muito respeito pela gente, dá para ver na forma que fala. Foi um dos caras que mais me surpreendeu por todo poder que ele tem, e pela forma que trata todo mundo. Sempre atento e gentil com todos. Ele não é tudo que é à toa. Quando você conhece e conversa, vê que é um cara diferente.
É impressionante como você brilha em jogos decisivos. Como você se prepara para esses grandes momentos?
– Fico muito feliz quando falam isso. Realmente, há gols importantes e que decidem jogos. Acredito que Deus olha para mim, me escolhe na noite e fala: “Hoje vai ser você”. Não acredito muito em sorte, acredito que o trabalho devolve. Tenho que estar preparado para esses momentos, como foi no jogo com o Manchester City. Todo mundo desacreditava, até eu. Não vou mentir. Mas pensava que ia sobrar uma bola e eu tinha que estar pronto.
– É assim em jogo grande. São jogos decididos nos detalhes e é nesse momento que tenho que aproveitar. Eu procuro mentalizar que vou fazer um gol daqui, que vai sobrar uma bola e vou chutar desse jeito. Não muito para não ficar tão quadrado e atrapalhar, tenho que estar leve. Eu procuro mesclar e a palavra tem poder, falar que vou fazer um gol, dois gols. Você chama e a coisa vem.
Como é o Rodrygo fora de campo? Você estuda algo, se prepara também fora dos gramados?
– Sempre gostei de fazer outras coisas. Às vezes, sou meio preguiçoso, meus pais ficam me cobrando. Já falo espanhol, voltei a fazer aulas de inglês. Faço trabalho com psicólogo, que é algo importante nos dias de hoje, mas é a mente que comanda tudo. Quando as pessoas entenderem que jogamos futebol com a mente e não com os pés, muita coisa vai mudar. Faço trabalhos em casa com personal também.
A questão da psicologia é algo que a sua geração dá muita importância. Antigamente, achavam que era coisa de doido, mas vocês não enxergam dessa forma, não é?
“Muita gente ainda vê assim. Eu via dessa forma. Quando falavam de contato com psicólogo, eu pensava: “Não sou louco. Por que psicólogo?”. Isso foi até eu ter a primeira sessão, ver como é. Vi que é uma coisa que só vai me ajudar, não vai me atrapalhar em nada, e é algo que eu recomendo para todo mundo”
– Quando começar a fazer, você vai ver a diferença na vida. Meu staff nunca me impôs nada, apenas me dá sugestão e sou eu que decido. Já tinha tido trabalho com coach e não era a linha que eu queria. Não tinha algum problema no momento, algo específico que precisasse. Vi uma entrevista com o Raphael Veiga onde ele falou sobre isso, procurei a mesma psicóloga e só me agregou.
Quando você chega a Osasco e vê pinturas do seu rosto nos muros, isso fala muito do senso de responsabilidade que vocês precisam ter por coisas que vocês, atletas, nem controlam. Como você lida com isso?
– Lido de forma bem séria. Sei da responsabilidade que eu tenho para crianças que se espelham em mim, como eu já me espelhei em outros jogadores. Qualquer coisa que eu postar vai ter gente olhando, falando bem, falando mal, principalmente as crianças, que vão ser o futuro. Procuro passar uma imagem boa para elas. Não sei se consigo ou não, mas é o que eu tenho tentado. A responsabilidade é grande.
Isso inclui também os casos de racismo. De que maneira você encara e está disposto a lutar contra isso?
“Estou 100% disposto a lutar contra isso. Eu sou negro também, assim como o Vini, e com certeza já passei por racismo”
– Talvez eu não tenha escutado como ele escutou. Estou fechado com ele nesta causa. Eu passei os momentos com ele e vi como foi triste, como foram dias pesados. Sabemos que força que nós temos quando falamos qualquer coisa. Ver o mundo se unindo nesta casa, levando a sério. Antes, falávamos e ninguém tomava atitude. Agora, o mundo se uniu e foi bem bonito. Sendo bem sincero, não vai acabar, mas podemos pelo menos tentar ir reduzindo e tomar atitude nos casos que forem a nossa frente.
Rodrygo e Vini dançam após gol em clássico contra o Atlético — Foto: Burak Akbulut/Anadolu Agency via Getty Images
Rodrygo e Vini dançam após gol em clássico contra o Atlético — Foto: Burak Akbulut/Anadolu Agency via Getty Images
A palavra neste momento é coragem? Coragem para enfrentar esse tipo de atitude, como você fez no clássico com o Atlético e foi dançar na frente dos torcedores?
– Assim como temos que ter coragem para jogar, temos que ter coragem para enfrentar essas situações que acontecem também fora de campo. É isso, coragem é a palavra.
Como você se relaciona com o Vini para entender como agir nesses momentos?
– Foi muito rápido. Eu estava em campo, não sabia o que tinha acontecido, e a movimentação estava estranha. Fui perguntar, e eles disseram que um cara tinha chamado o Vini de Mono (macaco em espanhol). Não só um cara, né, mas eu não posso nem falar. Esses dias fui falar (que era a torcida do Valencia) e tive que me pronunciar (para pedir desculpas). Tenho que ter cuidado, mas foi tudo muito rápido. Quando chegamos ao vestiário e pegamos o celular, o mundo inteiro já falava disso. Mas é uma coisa muito óbvia, não precisa de conversa ou estratégia. Temos que ter coragem de combater isso e já era.
Rodrygo reforça luta anti-racista no Campeonato Espanhol: “Fechado com Vini Jr.”
Na época, falou-se muito de o Real não ter tomado uma atitude mais drástica, não ter saído de campo… Acaba que é algo tão chocante em campo que vocês ficam sem reação? O que passa pela cabeça no momento?
– É tudo muito rápido. É um choque para a gente, que não sabe qual decisão tomar ou fazer. Depois, vendo os vídeos, a gente pensa que podia ter saído de campo, o juiz ter acabado a partida, mas na hora você não pensa. Precisa vir alguém de fora e instruir. Saiu a confusão na hora de um escanteio, uns já estavam pensando em como marcar no escanteio, outros brigando… Foi uma confusão e não sabíamos o que fazer.
Ainda nessa questão de posicionamentos fora de campo, você participa de causas sociais?
– Gosto muito de ajudar as pessoas. Sempre que eu puder, vou estar junto, vou postar, porque sei quantas pessoas posso atingir. Não tem muito segredo, sempre vou estar à disposição.
Você tem uma figura muito simbólica e central na sua vida que é o seu pai, também por ter sido jogador como referência. Como você lida para manter a relação paternal de carinho e também profissional?
– A gente tenta separar as duas coisas. É normal por ele se envolver muito na minha carreira, por se preocupar muito comigo, querer sempre o melhor, mas eu não vou concordar com tudo, nem ele com tudo que eu faço. É normal ter uma discussão, mas o respeito de filho para pai e pai para filho é normal. Meu staff não é só ele e tem vezes que eu falo: “Não, pai, vai curtir e deixa que o pessoal cuida”. Não podemos perder essa nossa relação.
Neymar sendo marcado pelo lateral Eric, pai do atacante Rodrygo — Foto: Divulgação/Mirassol
Neymar sendo marcado pelo lateral Eric, pai do atacante Rodrygo — Foto: Divulgação/Mirassol
A palavra final é sempre sua ou dele?
– É minha. Por mais que eu respeite muito ele, ele me passa os caminhos, mas eu vou decidir. Não tem jeito, eu que estou lá dentro tomando pancada. A palavra final tem que ser do jogador.
E essa relação mudou também a partir do momento que você se tornou pai?
– Com certeza. Ele sempre falou que um dia eu iria entender o porquê dele se envolver tanto. E tudo que ele me passou é como eu vou querer viver com meus filhos também.
O que é mais legal de ser pai? Acaba que você mesmo sendo muito reservado teve sua intimidade exposta no momento da paternidade, de que maneira você recebeu isso?
– É uma das primeiras vezes que eu falo disso. Só escutam um lado da versão, mas eu não ligo o que pensam de mim. Eu sei da minha verdade, e todo mundo que está no meio sabe como está sendo tudo. Eu jamais vou vir aqui e falar da outra pessoa, só quero sempre dar o melhor para os meus filhos como sempre fiz. Por eu não gostar de expor e por eles serem muito pequenos, é assim que eu penso, meus pais também pensam assim. Tem gente que tem necessidade de expor, não sei o que quer ganhar em troca, mas eu não vou fazer. Sempre vou dar amor e carinho para os meus filhos, como eu recebi dos meus pais.
Aproveitando esse episódio para falar da reflexão do lado de cá da imprensa. É uma relação cada vez mais distante… De que maneira você vê a relação da imprensa com os profissionais do futebol?
– Realmente é uma relação difícil. Essa parte do engajamento, do clique, muitos sempre querem e não estão nem um pouco preocupados com quem está do outro lados, com o que sentem ou estão passando. Escutam uma versão e pensam no engajamento sem pensar nos dois lados. Acho que isso que gera o conflito. Se tivessem empatia e pensassem no próximo, tinha tudo para ser uma relação muito boa. Outros levam para o outro caminho e não são todos, há muita gente boa na imprensa.
O quanto o que é dito sobre o que você faz dentro ou fora de campo te impacta?
– Eu não ligo porque eu sei da minha verdade e quem está comigo sabe. Em muitos casos, é só parar para pensar que a pessoa vai ver o que é verdade. Digo isso fora e dentro do futebol, que também saem inverdades, mas é normal. Enquanto eu estiver deitando no travesseiro com a consciência tranquilo, não há problema. As críticas em campo são normais, naturais. Quando eu jogo bem também vão falar bem.
De fora, como você vê essa realidade do futebol brasileiro com tantos episódios de violência? Isso impacta no desejo de um dia lá na frente voltar?
– Um dos principais fatores é a qualidade de vida. O futebol não vai ser igual em todos os lugares. É de um jeito no Brasil, na Europa, na Ásia. Isso que é o legal. Na Europa, é o mais alto nível e todo mundo concorda com isso. Mas essa questão da qualidade de vida é algo que tira a vontade de jogar no Brasil de novo.
“Você para e pensa: “Por que eu vou sair daqui?”. Vou para um lugar perigoso, em que o torcedor pode me bater na rua, vir para cima de mim, da minha família… É normal a gente conversar sobre isso entre si e nosso primeiro pensamento é: “Por que eu vou voltar?”.”
Você mudou de número nessa temporada, assumiu a 11. Até que ponto isso é legal ou não faz diferença para você?
– Não é bobagem porque com certeza vocês olham diferente para o camisa 10, 11, 7… Vamos entrar com uma pressão maior pelo que fizemos nas temporadas passadas e mudando o número é diferente. Gosto muito da 10, da 11.. Agora, é fazer minha história com a 11 porque olham diferente.
De que maneira você dividiu o seu tempo nas férias para também treinar e se preparar para essa temporada que começa agora?
– É difícil ficar 30 dias parado, você perde muito. É preciso ficar ativo nas férias para voltar bem. A pré-temporada é complicada, a gente fica cansado, os treinos são mais puxados, e o Real ajuda nisso. Eles passaram treinamentos para fazermos nas férias a partir de tal dia seguindo toda programação sem deixar de me divertir.
Para finalizar, como você tem acompanhado esse momento tão delicado que o Santos tem vivido?
– Não tem explicação. Se eu soubesse, certamente ia bater na porta e falar o que fazer. É um momento delicado, mas tenho total confiança e acho que logo logo a maré vai virar e o Santos voltar para o lugar de onde nunca devia ter saído, que é sempre no topo.
Fonte: Globo Esporte
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