- Esportes

Gerson na Seleção, a crônica de uma convocação anunciada

Muito antes de André Jardine se sentar na cadeira e substituir Tite na coletiva de apresentação dos últimos convocados para a data Fifa de junho, Gerson já era nome certo na Seleção. Não era assim, fácil como parece, colocar o nome do meia do Flamengo na lista para os jogos da seleção olímpica.

Gerson se apresenta, novamente, nesta segunda-feira. O nome dele apareceu, às 12h30 do dia 14 de maio, e Jardine respondeu mais uma, duas perguntas sobre o aguardado chamado do meio-campista. Erros, amadurecimento e foco. Foram algumas das palavras usadas pelo treinador em coletiva de imprensa. Antes desse dia, era Tite o mais questionado.

Por que não Gerson?

Essa história começa anos antes do anúncio do retorno do meia do Flamengo – que esteve em campo contra o Palmeiras na estreia do Brasileiro 2021 e vive demorada negociação com o Olympique de Marselha – para vestir a amarelinha. No dia 28 de setembro de 2013, a CBF publicou uma nota: “Gerson pede dispensa da Seleção Sub-17”. O motivo particular, a que a nota se refere, era a saúde da avó. Ela estava internada e morreu no Rio de Janeiro menos de uma semana depois.

Ali, a trajetória que era precoce com a Seleção – o jogador, então no Fluminense, chegou aos 15 anos na sub-17 e teve 10 convocações no sub-20, sempre como o mais jovem – cambaleava. Mas o sonho em verde e amarelo nunca saiu da cabeça de Gerson. Dois meses antes de ser anunciado pelo Flamengo em 2019, ele deu entrevista ao site da CBF.

– Tenho um objetivo bem claro de estar presente nas Olimpíadas de 2020 com a seleção brasileira. É, sem dúvida, meu grande sonho do momento – disse o jogador da Fiorentina, no início de maio de 2019.
Desde que voltou ao Brasil, Gerson encheu os olhos não só dos rubro-negros. A equipe de Tite o acompanhou ao vivo muitas vezes. Em algumas delas, com Jardine. Na penúltima etapa de observação, foram exatos 1.067 minutos entre a goleada do Flamengo por 4 a 1 sobre o Corinthians (em novembro de 2019) até outra vitória do Rubro-Negro, desta vez sobre o Grêmio, dia 28 de fevereiro de 2021, em Porto Alegre, com Tite e o analista de desempenho Bruno Baquete na Arena gremista.

Naquela ocasião, a convocação para a data Fifa de março de 2021 estava na esquina. Gerson seguia em grande fase. Nesses 13 jogos de observação in loco, foram três gols e quatro assistências. A pandemia alterou toda a agenda.

O QUE PASSOU, PASSOU
Revelado pelo Fluminense, o moleque de Xerém ainda era representado por Jorge Machado quando viveu seu primeiro episódio controverso na Seleção. O cenário era o CT de Cotia, em São Paulo. Preparação para o Sul-Americano sub-17 da Argentina. Gerson procurou o ex-zagueiro Mauricio Copertino, então auxiliar técnico de Alexandre Gallo, treinador da seleção sub-17 e responsável pela base brasileira. Disse que não estava bem e avisou que ia pedir dispensa.

Gerson na seleção brasileira – Reprodução
Gerson, em 2014, ainda na seleção sub-17. Depois, em 2019, no retorno triunfal ao futebol brasileiro
– Ele teve um problema familiar, da avó dele, me procurou e disse que queria ser dispensado. Não era indisciplina, mostrou personalidade, foi maduro em falar comigo. Falei na hora: “você tem certeza de que quer ser dispensado? Conversa com o pessoal da sua família, vê se você pode ficar. No jantar, se tiver convicção que quer isso, me fala.” E foi isso que aconteceu – recordou Copertino, um fã do futebol de Gerson, em contato com o ge.

– Ele tinha 15 anos ali (2013). Era pequeno e rápido, jogava pela beirada. Foi crescendo e recuando. Muito versátil. Não dá para defini-lo. Ele se multiplica – elogia o ex-auxiliar da seleção de base.
Em reportagem do ge sobre o “Ano do Vapo”, o pai de Gerson, Marcão. contou que Gerson teve um sonho com a avó (mãe dele). “Muitos entenderam isso de forma diferente, acharam que ele estava de resenha, mas a gente sabe o que estava acontecendo”, disse o pai do jogador.

Gallo está entre os “muitos”. Ele gostava muito do futebol de Gerson – jogador de temperamento considerado difícil e de jeitão que costuma ser chamado por aqui de “marrento” – e voltou a convocá-lo para o Sul-Americano, agora no sub-20. A campanha não foi boa, o Brasil terminou em quarto lugar, mas foi a última classificação da categoria para o Mundial.

Gerson, Gabigol, Carlos, atacante do Atlético-MG, foram alguns dos jogadores que tiveram atritos com Gallo naquele Sul-Americano. Alguns casos foram contados em reportagem do site “UOL” para explicar por que a lista do Mundial saiu sem o meia do Fluminense. Em entrevistas na época, Gallo disse que tentou contatos com Gerson, com o Fluminense e com seu estafe e não teve retorno. O diretor do Fluminense na época, Fernando Simone, e o ex-empresário Machado disseram que não houve contato algum.

Gallo foi demitido antes de ir ao Mundial – assumiu Rogério Micale, que terminaria levando o Brasil ao ouro em 2016. Antes, o caso passou na sala da presidência. Marco Polo del Nero chamou Gilmar Rinaldi, coordenador da principal, e Erasmo Damiani, da base. Ligaram para Simone, que repetiu não ter sido procurado em momento algum.

O ge procurou Gallo e Gerson para comentar o episódio. O treinador disse que ia falar, mas depois não atendeu a reportagem nem retornou as mensagens. O jogador não deu entrevista, mas ficou claro que o tema ainda incomoda, até porque a relação entre o treinador e Gerson, realmente, não foi boa.

CONVOCADO POR TITE E JARDINE
O último episódio que antecede a volta de Gerson para a seleção seis anos depois foi no fim de 2019. Ele já vivia grande fase naquele Flamengo de Jorge Jesus e recebeu contato de Gustavo Leal, com interesse na convocação para o pré-olímpico. Na conversa, o auxiliar de Jardine perguntou das condições físicas do jogador, que contou estar desgastado, depois de não tirar férias. O entendimento da CBF foi de que houve recusa. De Gerson, não.

Juninho Paulista disse, em visita à Colômbia no pré-olímpico, que “tudo é levado em conta, não só o aspecto técnico”. Citou “comprometimento, disponibilidade e foco.” Lembra das palavras de Jardine no início? O recado parecia claro, embora todos garantissem que as portas da seleção brasileira seguiam abertas.

Entre seleção olímpica e principal, foram convocados muitos jogadores para a posição. Tite chamou Arthur, Douglas Luiz, Bruno Guimarães, Matheus Henrique, Allan (do Everton) e agora novamente Fred, do Manchester United. Jardine convocou, além de Douglas, Bruno e Matheus, Wendel, Allan (do Atlético-MG) e Maycon.

Depois de quase cinco temporadas longe, Gerson cresceu, transformou-se num meio-campista mais completo e combativo e voltou a sonhar como aquele menino de 17 anos em agosto de 2014.

– Isso mexe demais comigo (jogar a Rio 2016). Mas tenho que trabalhar para jogar o Sul-Americano e ir bem. Se Deus quiser, mais para frente vou pensar em olimpíadas – disse Gerson, na Granja.
O entrevistador ainda perguntou como ele se imaginava em cinco anos e como apresentava seu futebol. Em terceira pessoa, ele disse que se via em grande clube na Europa “ou até mesmo aqui no Brasil, sendo um jogador bem conhecido.”

– Sou jogador com boa visão de jogo. Na hora que tem que ter velocidade, tenho velocidade, na hora que precisa administrar o jogo, administro. E tenho boa finalização – comentava.

O tempo de Gerson demorou mais do que ele esperava, mas a bola voltou para a canhota de novo. É ele quem tem que protegê-la, levantar a cabeça e sair jogando.

Fonte: Globo Esporte


There is no ads to display, Please add some

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *