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Irmão de Deiveson, Francisco Figueiredo avisa: “Não estou no UFC só porque sou irmão dele”

Francisco Figueiredo carrega um sobrenome de peso. Dois anos mais novo que o irmão Deiveson, ele terá a missão na próxima quarta-feira não só de estrear no UFC, mas de deixar de lado as comparações com o campeão dos moscas que certamente virão. E eles estarão na mesma categoria. Deiveson domina a divisão até 56kg, e já avisou que subirá aos galos se o irmão atingir o topo. Francisco enfrentará o americano Jerome Rivera no primeiro compromisso dentro do cage mais famoso do mundo.

Aos 31 anos, o lutador de Soure-PA garante que não estará pressionado pelas comparações. Muito próximo de Deiveson, ele se diz fã do irmão mais velho, mas avisou que seu estilo é diferente. Em conversa com o Combate, ele prometeu mostrar que não está no UFC simplesmente porque é irmão do campeão.

– Além de ser irmão sou muito fã, ele é um cara único, não posso me comparar com ele. Ele tem o estilo dele, eu tenho o meu. As pessoas vão ver a gente que somos parecidos na vontade de vencer. Vou fazer o meu estilo, não estou preocupado com isso. “Ah, meu irmão é um showman e tenho que fazer isso”, não, não estou com isso na cabeça, estou tranquilo. E as pessoas vão ver que não estou no UFC só porque sou irmão dele, estou muito tranquilo quanto a isso.

E qual é então o estilo de Francisco Figueiredo? Ao falar de suas virtudes, ele se comparou a outro campeão do Ultimate, campeão dos médios (até 84kg).

– Sou um cara que tenho o estilo meio parecido com o Adesanya, não atiro muito golpe no vento. Gosto de trabalhar para pegar mesmo, e não enrolo muito a luta, não gosto de ficar enrolando. Gosto de me envolver com meu adversário. Se ele estiver mais treinado que eu, vai me ganhar, mas gosto de me envolver, gosto de lutar.

Ficha da contratação demorou a cair
Francisco chega ao UFC credenciado por um cartel com 11 vitórias, um empate e três derrotas. Suas principais lutas no Brasil foram no Jungle Fight, onde foi campeão interino nos galos. Pouco antes de Deiveson defender o cinturão contra Alex Perez, em 21 de novembro, ele foi surpreendido por uma mensagem enviado por Wallid Ismail, empresário dos dois. E demorou até cair a ficha.

– O Wallid tinha me prometido que lutaria o Contender (Series). Estava me preparando na academia e, com uma semana, ele mandou no grupo dizendo que era para me preparar porque não lutaria mais o Contender: “Tu vai lutar o Fight Árabe, caboclo, tu vai lutar o Fight Árabe”. Fiquei pensando: “Fight Árabe, qual é esse evento?”. Perguntei ao meu outro coach, ele falou: “É o UFC, é o UFC”, e aí caí na real. Fiquei muito feliz, passou um filme pela minha cabeça, do momento que comecei a treinar, 12 anos atrás, a gente batalhou muito. Foi uma jornada muito longa. Passou pela minha cabeça a vontade que tive de desistir, mas sempre pensava: já treinei pra caramba, já ralei pra caramba, agora vou ter que ganhar dinheiro com isso. Graças a Deus, continuei. Vários dos caras que começaram comigo desistiram. Tinha cara que o pai dava tudo para só treinar e ele desistiu.

A esperança de ganhar uma chance no UFC, naturalmente, começou quando Deiveson chegou à organização, em 2017. Francisco vai estrear três anos e meio depois da primeira luta do irmão.

– Foi uma notícia muito boa para mim quando meu irmão entrou para o UFC. Eu já estava lutando Jungle Fight, mas estava lesionado, dando um tempo, e quando ele entrou no UFC foi como se eu tivesse entrado, foi um sonho. Me considero ter motivado ele a vir treinar em Belém, porque fui o primeiro a sair de Soure, ele ficou lá ainda porque estava apaixonado por uma garota e estava sofrendo e não queria ir para Belém. Depois, ele veio e começou a treinar e ganhar dos caras, tinha certeza de que uma hora o UFC ia atrás dele. O Daico é diferente, é um cara que dá show. Na época que ele foi contratado me senti muito feliz: “As coisas vão melhorar agora, vou me manter focado, meu irmão conseguiu, sei que vou conseguir também”.

Mas se foi Francisco quem chegou primeiro à capital paraense, foi Deiveson quem deu início efetivamente nas lutas. O campeão peso-mosca conheceu Iuri Marajó, ex-lutador do UFC e natural de Soure, e começou ali a escrever sua história no MMA. Assistindo aos treinos, Francisco também viu que estava ali seu futuro.

– Ele começou a lutar na minha frente, conheceu o Iuri primeiro, então treinava muay thai e jiu-jítsu. Eu ia olhar ele treinar todo dia, eu lutava luta marajoara desde moleque. Quando ele chegava em casa, me passava as técnicas e eu aprendia muito rápido. Até que ele me levou para treinar lá e desde então não parei mais. O Daico ficou um tempo afastado e eu continuei, só que quando ele voltou a treinar eu já estava batendo de frente com ele na academia. Ele lutou com 17 anos, na época eu tinha 15 anos, isso foi em Soure. Na época era vale-tudo ainda.

Aprendiz de sushiman antes de Deiveson
Num momento decisivo da carreira, Francisco contou com a ajuda espontânea de um amigo para ganhar um emprego que mudaria os rumos de sua história em Belém. Naquele momento, se não tivesse como se manter na capital, teria que voltou para Soure.

– Estava só treinando, fiquei um mês morando na casa do Iuri, e um belo dia estava na academia e um moleque se sentou ao meu lado e falou: “Tu tá a fim de trabalhar, cara?”. E eu realmente queria, teria que voltar para Soure se não arrumasse um emprego. Falei: “Quero”. Ele falou assim: “Vou te botar para aprender (a fazer) sushi”. Eu nem sabia o que era isso, vinha do interior. Ele me levou de bicicleta em outro bairro, eu com muito medo, moleque de interior tem muito medo quando vem para a cidade. Depois que aprendi a ir, fui aprendendo o básico do sushi. Esse moleque o nome dele é Josimar, um cara que gostava de ajudar as pessoas mesmo! Ele trabalhava num restaurante de sushi e me arrumou um trabalho lavando louça. Pense num trabalho que não gostei! Terminava e pensava: “Que bom que terminei, cara”, e vinham com uma penca de louça e jogavam! Égua! Mas aprendi a fazer sushi e já peguei outro trabalho, ficava de barman e como auxiliar na cozinha do sushi. Foi nesse tempo que meu irmão já veio de Soure. Trabalhei uns dois anos nesse (restaurante) e depois resolvi só dar aula. Peguei um trabalho de carteira assinada e comecei a dar aula na academia. Assim, tinha mais tempo para treinar, sempre quis treinar, e trabalhando à noite não tinha como treinar direito de manhã.

A história de Deiveson como sushiman, na verdade, começou através da mesma pessoa que ajudou Francisco.

– Ele aprendeu no mesmo lugar. Aí também nem bem aprendeu e ele (Josimar) arrumava emprego, esse meu amigo era demais! E ficava do lado, levava, dizia que a gente sabia. Só queria ajudar. Até hoje sou muito grato a esse cara.

Mas foi mesmo a entrada de Deiveson no UFC que mudou o destino da família. Com o suporte que passou a ter do irmão mais velho, Francisco conseguiu se dedicar apenas a lutar.

– Quando ele entrou no UFC, pude focar mais nos treinos, porque antes a gente tinha que se virar mesmo. Vi que se eu queria mesmo lutar em nível alto, tinha que me focar só na luta, não dá para trabalhar e lutar em evento grande onde o nível é bem alto. Ele me ajudou a ficar só treinando quase, só dava uma aula na nossa academia.

Adversário tem só uma luta no UFC
Se Francisco Figueiredo fará sua estreia no Ultimate, seu adversário já o fez, mas nada além disso. Jerome Rivera tem 25 anos e um cartel com 10 vitórias e três derrotas, bem semelhante ao do brasileiro. Contratado em agosto de 2020 via Contender Series, ele estreou no UFC no mês seguinte, mas foi nocauteado por Tyson Nam no segundo round.

– Ele é bem alto, usa bem os chutes frontais, tem bastante finalizações. Estou muito empolgado, tomara que ele esteja bem treinado, quero fazer uma ótima luta. Confio no meu jogo, confio no meu timing, sou muito habilidoso, posso ganhar ele em qualquer área.

Em Abu Dhabi, Francisco terá três pessoas em seu córner. Deiveson estará presente, além do lutador Iuri Marajó, ex-UFC, e Jura Balboa, treinador de boxe.

– O Daico tem o treinador dele de boxe, o Maizena, mas tenho outro treinador que me adapto mais. Gostaria de trazer todos os coaches, me dou bem com todos, a gente é uma família lá, mas como os outros estavam viajando e esses foram os que me acompanharam mais no treino, principalmente o Jura, que melhorou muito o meu boxe. Trouxe o Iuri, que foi meu primeiro treinador, então sou muito grato a ele. Tinha prometido que quando entrasse num evento grande o traria comigo. E meu irmão, escuto muito ele. Estou muito tranquilo com eles, só tenho córner casca-grossa.

Fonte: Globo esporte


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