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Motivado pela dor, Herbeth Índio luta para honrar história do irmão morto há sete anos

A tarde de 19 de abril de 2012 mudou a vida da família Sousa para sempre. Nesta data, Hércules Sousa Reis, soldado do Exército brasileiro, então membro da 1ª Bateria de Artilharia Antiaérea, morreu durante um treinamento de resistência no campo de instrução de adestramento de Brasília. Nesta data, “nasceu” o lutador Herbeth Sousa, seu irmão.

Herbeth, que é conhecido como Índio, vai disputar o cinturão peso-galo do Future FC nesta sexta-feira. Mas para contar sua história, é inevitável falar de Hércules. Até porque, antes de perder o irmão, lutar MMA sequer passava por sua cabeça. Porém, o pior aluno de jiu-jítsu se transformou em um atleta com cartel de 13 vitórias e uma derrota. E sua motivação é usar o esporte como ferramenta para divulgar o que aconteceu naquele 19 de abril.

– Minha história no MMA começou por causa do meu irmão. Eu sempre o acompanhava e, como tínhamos a mesma estatura, era parceiro de treino dele. Quando ele faleceu foi um baque muito grande para a minha família. Tive esse desejo de continuar a história dele, lutando, contando para as pessoas que o que aconteceu no Exército foi errado. Ele estava fazendo um curso lá, não teve os socorros devidamente prestados, senão estaria vivo. Quero contar isso. Quando ele veio a falecer, vieram com história montada. O Exército chegou aqui querendo que a gente ficasse calado, mas meus pais são muito turrões, teimosos, não aceitaram. Como a gente o conhecia, sabia que ele não ia dar esse mole. Depois de tanto “cavucar” a história, acabamos descobrindo que ele fazia curso de transposição na água. Uma corda amarrada de uma ponta a outra do lago, uma em cima e outra rente à água. Ele passava pela terceira vez e alguém controlando o cabo ficou balançando a corda. Ele caiu no fundo do lago e não conseguiu subir porque não sabia nadar.

A “ficha” caiu somente ao ver o corpo de Hércules no Instituto Médico Legal (IML). A sensação é de impunidade, afinal, o processo criminal, segundo Índio, foi arquivado. Resta, enquanto batalha dentro do cage, lutar pelo processo cível.

– No Exército, quem não sabe nadar veste uma camiseta branca. Quem sabe, fica sem. Boa parte dos garotos não sabia nadar. O Sargento sabia (que ele não sabia nadar), o Comandante sabia, mas pediram para passar mais uma vez. Na última vez que foi passar, aconteceu. Na hora descobrimos que o médico estava em outro local e demorou cerca de 15 minutos. Ele ficou 12 ou 13 minutos debaixo d’água. Houve muitas negligências que o Exército não soube explicar. Entramos com processo, esse ano descobri que o processo criminal foi arquivado e ninguém vai ser responsabilizado. E o processo cível por danos morais que eu e minha mãe entramos, está em andamento. É esperar porque a Justiça brasileira é um pouco lenta. Mas o processo criminal foi arquivado e ninguém será culpado porque é muito difícil você julgar algo contra o Estado. A gente tentou falar com alguns meninos que estavam na hora, todos foram coagidos, ficaram com medo, a maioria dos Sargentos que estavam na prova foram retirados de Brasília. O Coronel foi embora, o Comandante também. A morte dele foi um baque pra gente. Como ele sempre foi um cara muito esperto, não acreditamos. Só acreditei quando vi o corpo no IML. Ele passava uma confiança tão boa. Ele se apavorar fazendo uma prova foi meio controverso pra gente e demoramos a assimilar isso. Foi aí que o MMA me salvou. Comecei a lutar, ocupar a cabeça e consegui superar isso ou pelo menos amenizar essa dor de tê-lo perdido.

Da sensação de injustiça, Herbeth reuniu forças para perpetuar o nome do irmão. E, ao decidir “herdar” a profissão de Hércules, passou a utilizar sua visibilidade para jamais deixar o maior drama da sua vida cair no esquecimento.

– O primeiro mês foi muito ruim após a morte dele, eu chorava todos os dias. Ia para a escola só por ir mesmo, e um dia falei: “Vou contar minha história e a do meu irmão para o mundo”. Pensei como fazer isso, já treinava e resolvi me dedicar 100% ao MMA. Falei para os meus pais que queria muito ser lutador profissional, e eles foram os primeiros a me apoiar. Quem viu de fora achou que eu tinha ficado doido por ter perdido meu irmão. Ganhei uma, duas, três, 10 lutas. Fiquei invicto. O pessoal viu que eu levava a sério e começou a torcer por mim. Foi um estalo mesmo. Uma ideia que tive e um sentimento que fui criando, cultivando e estou aí até hoje. Se antes de ele falecer me falassem que eu seria lutador de MMA, eu ia rir. Nunca me vi lutando. Acho que já estava tudo predestinado a acontecer mesmo.

De “maluquice” à profissão, o MMA tomou conta da vida de Herbeth – o menino que durante a infância pensava apenas em futebol. Mas é como reza o ditado: “se não puder vencer pelo talento, vença pelo esforço”. E foi assim que o atleta – então limitado tecnicamente no tatame – fez.

– Só jogava muita bola na rua, entrava nas escolinhas de futebol. Sempre temos a predileção pelo futebol. Desde pequeno meu irmão teve esse negócio por luta, e eu sempre gostei de futebol, mas nada profissional, só para jogar mesmo. Em relação ao jiu-jítsu, eu sempre fui ruim, muito ruim. Não sabia nem fazer polichinelo, saída de quadril… Eu falava para o meu irmão: “Cara, eu não vou gravar esses golpes, é muito difícil”. Eu era muito ruim, então botei na cabeça que tinha que treinar o dobro. Quando as pessoas veem, acham que sempre fui o destaque da academia, mas é completamente o contrário. Eu sempre fui o pior.

Em busca do sonho – o mesmo de quase todo lutador – de chegar ao UFC, Herbeth tem nesta sexta-feira mais um obstáculo à sua frente: Taigro “Urso Branco” Costa, no Future FC, pelo cinturão dos galos. A tática ele nem esconde: levar para o chão e finalizar.

– É uma grande oportunidade para concretizar meu sonho de chegar no UFC. Vou entrar de cabeça e coração para conseguir este cinturão do Future, que está exportando os atletas. Quero entrar neste bonde para ir para o UFC. O Taigro é um cara bem duro. O bom é que ele tem jogo parecido com o meu, que é levar para o chão. Nossa diferença é que ele sempre vai por pontos, e eu termino as lutas. Não mexi muito na estratégia, não me preocupei muito com isso, me preocupei mais com meu jogo, trabalhar meu jiu-jítsu, levar para o chão, defesa de queda. Acredito que a luta seja bem disputada na grade e no chão, que é onde a gente manda melhor. Tive um treinamento ótimo, treinei aqui na Constrictor com o mestre Ataíde Júnior, tive um camp perfeito na medida do possível e acredito que vou impor meu jogo e sair com essa vitória.

Fonte: Globo esporte


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