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Romário & Ronaldo, saudade do que a gente quase viveu

É irresistível comparar Romário, o baixinho marrento, e Ronaldo, o carismático e explosivo atacante. Mas já experimentou curtir um pouco do futebol dos dois juntos? O ge faz uma viagem no tempo para te levar desde fevereiro de 1997 até o corte de Romário, dias antes da Copa do Mundo de 1998. A lesão na perna direita do Baixinho, no estádio Eduardo Guinle, em Nova Friburgo, no dia 6 de maio – 24h depois da convocação – pôs fim à dupla RoRô e aliviou defensores antes do Mundial.

Foi bonito e intenso, mas durou pouco. Foram só 19 jogos – um deles depois da Copa. Juntos, eles têm média de gols superior à de Bebeto e Romário, a dupla do tetra (confira os números mais abaixo). Mais: a marca que Tite chegou próximo de igualar, com 10 vitórias até o empate contra o Equador na última partida da Copa América, ainda pertence àquele time.

Com Romário e Ronaldo no ataque, foram 14 vitórias seguidas entre 10 de junho (1 a 0 contra a Inglaterra) e 12 de dezembro de 1997 (3 a 0 sobre a Arábia Saudita). A maior série de vitórias da centenária história da Seleção.
Em vídeos, você vai ver muitos gols e lances. Da reportagem de Tino Marcos com “os donos do mundo” – Romário foi o maior do planeta em 1994 e Ronaldo ganhou o prêmio da Fifa em 1996 e 1997 – até depoimento do próprio repórter, testemunha da formação daquela dupla, mais entrevistas exclusivas com Romário e Zico, contando bastidores daquela preparação. Também tem a voz de uma “vítima”. Um zagueiro peruano, fã de Romário, que sofreu a maior goleada no período: 7 a 0 para o Brasil na semifinal da Copa América de 1997.

Veja os gols de Romário e Ronaldo nos jogos em que atuaram juntos pela Seleção

ESTREIA DE LETRA
Numa noite de quarta-feira, em Goiânia, não cabia uma pessoa a mais no estádio Serra Dourada. Quase três anos depois de se enrolar na bandeira e comemorar o tetra, a atração principal da noite era Romário. Gritado em coro pelos torcedores, ele voltava para a Seleção depois de pedir um tempo a Zagallo após o título nos EUA. O que foi atendido, digamos, com louvor.

– O Lobo vai engolir o lobby – Zagallo, o Velho Lobo, disse um dia antes de admitir que perdeu para o lobby, na antiga sede da CBF.
Veja a trajetória da dupla na Seleção
Depois de novo grande apelo popular, midiático e até comercial (certamente você lembra do comercial da Nike no aeroporto com as duas estrelas mundiais batendo bola? Se não for cringe, procure no YouTube), o Baixinho voltou e deu show particular, com toque de letra e passe para gol de Ronaldo.

Foi ali no dia 26 de fevereiro de 1997 que Romário e Ronaldo, um cria da Vila da Penha, outro de Bento Ribeiro, os dois do subúrbio carioca para o mundo, pareciam ignorar os 11 anos de diferença de idade. Pareciam “feitos um para o outro”, como estampou a “Placar”, na capa de abril daquele ano. A goleada sobre a Polônia (4 a 2) teve lances de cinema.

– Era uma unanimidade naquela época a noção de que o Ronaldo era o melhor do mundo, eleito pela Fifa, e o Romário ainda era o poderoso atacante, dono de qualquer posição ali. Tinha enorme prestígio. Ninguém duvidava de que os dois titulares seriam eles e o Bebeto teria que ficar de fora. Mesmo com o nome que tinha.

O relato acima é do repórter Tino Marcos, que acompanhou a seleção brasileira por 30 anos pela TV Globo. Viu de perto o surgimento dos dois craques – e de tantos outros. Antes daquela estreia, ele retirou camas do quarto e improvisou estúdio – ao lado de repórter de jornal espanhol – no hotel em Goiânia. Pegou a descontração e a química da dupla, ansiosa pela primeira partida.

– Levamos um globo que pudesse reproduzir uma bola para que a gente pudesse brincar com a ideia de que ali estavam os donos do mundo. Afinal de contas estavam o craque da Copa de 1994 e o atual melhor do mundo. Foi o maior barato, porque eles entraram na brincadeira. O Romário dizia, “Olha aqui, você está seguindo meu passo. Eu fui para a Holanda e você foi atrás de mim. Fui para o Barcelona e você também” – lembra Tino.

CARECAS E LÁGRIMAS
Romário e Ronaldo jogaram juntos três competições – duas delas de maior peso. Encerraram jejum de conquistas de Copa América em 1997 – a última que terminara com título brasileiro havia sido em 1989. Na Bolívia, atropelaram adversários, com direito a 7 a 0 na semifinal contra o Peru, que havia eliminado a Argentina.

– Era a experiência viva de Romário com a juventude, potência e tudo de Ronaldo. Eu tenho certeza de que, se Romário estivesse ao lado de Ronaldo na final da França, que muitos falam coisas, ele teria um grande respaldo, essa tranquilidade e teria demonstrado tudo – imagina Miguel Rebosio, que era um jovem zagueiro peruano na Copa América de 1997.

Com a dupla de ataque, o Brasil também venceu a Copa das Confederações com mais um show na final – 6 a 0 contra a Austrália, com três gols para cada careca genial do ataque. Isso mesmo, Romário e outros tantos jogadores daquela equipe rasparam a cabeça na Arábia Saudita, na primeira conquista do torneio criado pela Fifa.

Campeã do mundo em 1994, a seleção brasileira não disputou as Eliminatórias e teve mais espaço na agenda. Jogou o Torneio da França, no qual ficou em segundo lugar, com dois empates (1 a 1 com os donos da casa, 3 a 3 com a Itália) e uma vitória – 1 a 0 sobre a Inglaterra.

Tudo ia nos conformes até Romário subir a serra de Friburgo para disputar o jogo entre Friburguense e Flamengo – pelo Campeonato Carioca -, colocar a mão na panturrilha e virar dúvida um mês antes da Copa. Na preparação, no Château de Grande Romaine, nunca foi a campo. Passou o tempo todo acompanhado do fisioterapeuta Claudionor Delgado. Mas não se via fora do Mundial de jeito algum.

– Ninguém será cortado – dizia o médico Lídio Toledo, já em solo francês.
No dia 2 de junho, oito dias antes da estreia brasileira contra a Escócia, Zagallo, Lídio e Zico, então coordenador da Seleção, anunciaram o corte de Romário. O Baixinho foi para a coletiva de imprensa em seguida, mas mal conseguia falar. Ainda bradou contra aqueles que “ficaram felizes”, alfinetando parte da imprensa que ele achava que o perseguia.

– Não tem tempo previsto, pode ser 10, 15, 20 dias. Até um mês – disse, dias depois, o médico, frustrando Romário, na coletiva do corte.

– A alegria de uns é a tristeza de outros – disse Romário, em parte dos apenas seis minutos de entrevista, interrompida em lágrimas e pelo então assessor de imprensa da CBF.

– Tenho certeza de que não acabou a minha relação com a Seleção…
Fora da Copa, Romário ainda reviu Ronaldo na Seleção, em 1999, no jogo do centenário do Barcelona. Foi dele o passe para Ronaldo marcar o primeiro da seleção brasileira no Nou Camp, palco de tanto brilho da dupla. Foi a última aparição conjunta de dois craques históricos, referências da posição e inspiração para jogadores de todo o mundo.

Ídolo, melhor atacante, melhor jogo: Romário responde tudo em quiz
O corte gerou mágoa e provocou briga que foi até a Justiça. Romário estampou fotos de Zagallo e de Zico em boate que inaugurou em 1999 na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na porta do banheiro, caricaturas da dupla sentadas no “trono” e com papel higiênico na mão. O caso enfureceu o Velho Lobo e o Galinho, que processaram Romário.

Apenas em 2010, muito tempo depois, Zico e Romário fizeram as pazes. Foi no “Jogo das Estrelas”, promovido pelo eterno ídolo do Flamengo. Zico sempre insistiu que nada teve a ver com o corte de Romário. Ao ge, contou que se arrependeu de aceitar o convite de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, para entrar na comissão técnica de Zagallo. Pois considerou que não teve voz ou autonomia alguma.

Mesmo que atualmente distantes, Ronaldo, hoje presidente do Real Valladolid, da Espanha, elegeu Romário em sua seleção de todos os tempos. O Baixinho tampouco se cansa de elogiar o Fenômeno. A dupla ficou no passado, mas os lances são eternos. A fantasia ficou na memória de todos os amantes do futebol.

Os 19 jogos de Romário e Ronaldo

26/2/1997 – amistoso – Brasil 4 x 2 Polônia – dois gols de Ronaldo
2/4/1997 – amistoso – Brasil 4 x 0 Chile – dois gols de Ronaldo, dois gols de Romário
30/4/1997 – amistoso – Brasil 4 x 0 México – três gols de Romário
30/5/1997 – amistoso – Brasil 2 x 4 Noruega – um gol de Romário
3/6/1997 – Torneio da França – Brasil 1 x 1 França
8/6/1997 – Torneio da França – Brasil 3 x 3 Itália – um gol de Ronaldo, um gol de Romário
10/6/1997 – Torneio da França – Brasil 1 x 0 Inglaterra – um gol de Romário
13/6/1997 – Copa América – Brasil 5 x 0 Costa Rica – dois de Ronaldo, um de Romário
16/6/1997 – Copa América – Brasil 3 x 2 México
19/6/1997 – Copa América – Brasil 2 x 0 Colômbia
22/6/1997 – Copa América – Brasil 2 x 0 Paraguai – dois gols de Ronaldo
26/6/1997 – Copa América – Brasil 7 x 0 Peru – dois gols de Romário
12/12/1997 – Copa das Confederações – Brasil 3 x 0 Arábia Saudita – dois gols de Romário
16/12/1997 – Copa das Confederações – Brasil 3 x 2 México – um gol de Romário
19/12/1997 – Copa das Confederações – Brasil 2 x 0 República Tcheca – um gol de Romário, um de Ronaldo
21/12/1997 – Copa das Confederações – Brasil 6 x 0 Austrália – três gols de Ronaldo, três de Romário
25/3/1998 – amistoso – Brasil 2 x 1 Alemanha – um gol de Ronaldo
29/4/1998 – amistoso – Brasil 0 x 1 Argentina
28/4/1999 – amistoso – Brasil 2 x 2 Barcelona – um gol de Ronaldo

ESTATÍSTICAS

Romário e Ronaldo

19 jogos – 18 antes da Copa de 1998, um depois da Copa de 1998 (Brasil 2 x 2 Barcelona)
Gols de Romário – 18, com sete assistências de Ronaldo
Gols de Ronaldo – 15, com quatro assistências de Romário
Média de gols somente da dupla Romário e Ronaldo – 1,73 gol/partida
Marcaram 59% dos gols da Seleção – 33 de 56 – enquanto jogaram juntos
Bebeto e Romário

21 jogos
Gols de Romário – 16
Gols de Bebeto – 14
Média de gols dupla Bebeto e Romário – 1,42 gol/partida
Marcaram 73% dos gols da Seleção – 30 de 41 – enquanto jogaram juntos

Fonte: Globo Esporte


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