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Craque em 2000, Juninho teve partidas adiadas por convocação. Hoje, virou alvo na CBF em silêncio

Final dos anos 2000. O técnico interino da seleção brasileira Candinho leva a campo Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Euller e Romário na goleada de 6 a 0 em cima da Venezuela, em Maracaibo – com quatro gols de Romário. Era um dia 8 de outubro, domingo.

No dia anterior, um sábado, em Curitiba, deveriam jogar Coritiba e Vasco, mas o dirigente vascaíno Eurico Miranda, então vice de futebol, conseguiu o adiamento da partida usando o próprio regulamento do Brasileiro da época – a Copa João Havelange, então organizada pelo Clube dos 13, previa a possibilidade de adiamento em caso de mais de três jogadores convocados para a Seleção.

Passaram-se exatos 21 anos, o Brasil vai jogar com a Venezuela novamente e o cenário é de crise fora do campo. Envolve o eterno problema de calendário da CBF, o Campeonato Brasileiro, um clube carioca e… uma coincidente figura em comum: Juninho.

Contratado para cargo criado pelo presidente afastado da CBF Rogério Caboclo, Juninho Paulista chegou em abril de 2019 do Ituano, clube que dirigiu depois de pendurar as chuteiras, para atacar o velho problema do calendário.

Líder das Eliminatórias com 100% de aproveitamento após oito partidas, o Brasil vai a campo contra a Venezuela nesta quinta-feira, às 20h30, com transmissão da TV Globo, do SporTV e do ge
Dois anos depois se tornou alvo mais fácil de promessa que saiu da sua boca em coletiva de Tite, mas veio dos gabinetes de uma CBF de comando interino – com três presidentes nos últimos meses e a sombra de forte influência do ex-presidente Marco Polo Del Nero, banido do futebol por corrupção.

O desconforto de Juninho é latente. No dia 24 de setembro, ao lado de Tite, citou o diretor de competições Manoel Flores para reforçar que seriam adiadas as partidas do Flamengo e de outros clubes com jogadores convocados. Procedimento igual ao da rodada das Eliminatórias de setembro.

Ele apenas dava publicidade ao que se definiu, antes da convocação, numa mesa em que se sentaram o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, o presidente em exercício da CBF, Ednaldo Rodrigues, o diretor jurídico da CBF, Luiz Santoro, o próprio Manuel Flores e também, por alguns momentos, Gustavo Feijó, vice da CBF que participa mais das reuniões com Juninho e toda a estrutura da Seleção.

Com seus 1,67m de altura, Juninho se sentiu contrariado. Em bom português, vendido na situação. Recebeu alguma solidariedade de cartolas da CBF, mas não viu ninguém se posicionar publicamente sobre o caso. Demonstrou internamente insatisfação e brincou com o próprio tamanho: “sou pequeno, não tenho as costas largas”.

Em 2000, sindicato impediu mais jogos
O curioso da história de um futebol que anda em círculos vem da intervenção em 2000 de agente externo no caso. O Sindicato dos Atletas Profissionais de Futebol do Rio de Janeiro foi à Justiça comum para impedir que o Vasco de Juninho Paulista jogasse duas vezes em intervalo inferior a 66h. E conseguiu a liminar para o adiamento da partida em dois dias.

Na ocasião, o Vasco e o sindicato de atletas do Rio de Janeiro enfrentaram na Justiça o então Clube dos 13 e a fúria do Cruzeiro, adversário da semifinal do Brasileiro. Na maratona, o time de São Januário poderia ter feito duas partidas em dois dias consecutivos – Universidad Católica pela Copa Mercosul, na quarta, e o Palmeiras, no Brasileiro, numa quinta.

Liminar de sindicato dos atletas do Rio garantiu adiamento. Alfredo Sampaio, que ainda preside Saferj, dizia: “Foram os jogadores do Vasco que me procuraram, embora estivessem orientados pelo Eurico. Nós tínhamos que agir”Presidente — Foto: Reprodução jornal “O Globo”
Liminar de sindicato dos atletas do Rio garantiu adiamento. Alfredo Sampaio, que ainda preside Saferj, dizia: “Foram os jogadores do Vasco que me procuraram, embora estivessem orientados pelo Eurico. Nós tínhamos que agir”Presidente — Foto: Reprodução jornal “O Globo”

“Com a resolução da Justiça, o Vasco teria o benefício de atuar 13 vezes não em 31, mas sim em 38 dias”. É o trecho do livro “Eurico Miranda – Todos contra ele”, de Sergio Frias, historiador e candidato à presidência do Vasco ano passado, sobre a história do dirigente falecido em 2019. Com calendário menos rígido, o Vasco venceria a Mercosul na histórica virada por 4 a 3 no antigo Palestra Itália, dia 20 de dezembro, e o Brasileiro no início de janeiro – o jogo seria 30 de dezembro, mas foi remarcado depois da queda do alambrado de São Januário.

Em 2021, já não existe mais o artigo no regulamento da CBF que permite o adiamento das partidas por convocação. Ao contrário, o texto é claro sobre a questão no artigo 10, inciso 1: “A convocação de atletas para integrar seleções nacionais não assegura aos seus Clubes o direito de alterar as datas de suas partidas em competições.”

E a federação nacional dos atletas (Fenapaf), com muita pressão e apoio de outros clubes – e capitães de 19 times, incluindo o Atlético-MG, que também perde jogadores em Data Fifa – contra o Flamengo, fez valer compromisso assumido com a CBF para não mexer no calendário.

Em pronunciamento, Landim atribuiu o comportamento dos dirigentes a “outra CBF”, depois de discutirem a tabela na reunião, a possibilidade de estender até o dia 26 de dezembro para os dois últimos jogos, mesmo sob acordo com a Fenapaf. Saiu da CBF com a certeza do acordo.

O cartola rubro-negro considerou possiblidade de retaliação. Nas entrelinhas, referia-se à reação interna da CBF sobre a possibilidade dele assumir como interventor pela Justiça. Além da briga solitária para a volta do público antes dos demais clubes. No campo de influência de Del Nero está o vice-presidente jurídico Carlos Eugênio Lopes, o Carlô, e outros dirigentes da entidade.

A CBF se pronunciou apenas em nota oficial sobre o caso. O ge procurou novamente a entidade nacional do futebol, lembrou que o diretor de competições Manoel Flores foi citado, mas não houve resposta além do comunicado anteriormente emitido.

Não é só Juninho que se incomoda com as questões repetidas de calendário. Tite, da mesma maneira, se mostra constrangido com o tema. Foge do tema e a todo momento é cobrado – e lembrado das próprias reclamações de quando era técnico do Corinthians – sobre o prejuízo dos clubes com o conflito de calendário. A dupla entende que não cabe mais a eles se expor sobre o tema.

Assim que assumiu a presidência da CBF, Rogério Caboclo fez a promessa, que depois se tornou inviável com a pandemia, para solução parcial a partir de 2020. Juninho a repetiu em entrevistas.

– Nós vamos enfrentar com determinação a questão do calendário. Assumo aqui um compromisso: a partir de 2020, as datas FIFA estarão livres no calendário das competições nacionais – disse o presidente suspenso da CBF.

No entanto, a Copa América, que terminou cancelada, já conflitaria com as datas do Brasileiro. O novo calendário para 2021 está previsto para sair até o fim de outubro. Com estaduais começando no fim de janeiro e a preparação da Copa do Mundo, em outubro, a previsão é de mais chuvas e trovoadas pela frente entre o clube da vez e a organização do futebol brasileiro.

Fonte: Globo Esporte

 


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