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Mundial não empolga população de Doha e chega à reta final com arquibancadas vazias

O turista que passeia pelas partes mais nobres de Doha tem se deparado, desde as últimas semanas, com painéis e banners gigantes divulgando o Mundial de Atletismo. Mesmo com todo o investimento do Governo do Catar, a competição ainda não empolgou a população local. Após dois dias com cerca de 70% de ocupação do Estádio Khalifa, o que se viu em diante foi uma queda brusca de público nas sessões que costumam começar no fim da tarde e vão até depois das 22h do horário local.

Nesta terça, dia 5 de competição, o evento viveu o seu pior momento com arquibancadas às moscas numa taxa de ocupação de aproximadamente 25% (números não oficiais). O Governo do Catar acredita que, nos próximos dias, em especial a partir de sexta, a tendência é ter uma leve melhora de público no Khalifa.

Os organizadores do Mundial lembraram também que nesta terça houve um outro evento esportivo concorrente ao Mundial. Enquanto atletas do mundo todo competiam no Khalifa, cerca de 15 mil qataris foram ao Estádio Jassim Bin Hamad Stadium, também em Doha, assistir à semifinal da Liga dos Campeões Asiáticos entre Al-Sadd e Al-Hilal, da Arábia Saudita.

– Após dois dias sólidos de participação (70% no dia 1 e 67% no dia 2), os números caíram em nossas expectativas no dia 3, abaixo de 50%, o que coincidiu com o início da semana de trabalho no Catar. Estamos confiantes de que nossos esforços renovados incentivarão a comunidade local a voltar a prestigiar o Mundial – disse o Comitê Organizador do Mundial de Doha, por meio de nota.

O órgão ressaltou ainda que este é o primeiro Mundial de Atletismo no Oriente Médio. O Comitê acredita que a realização da competição poderá alavancar novos fãs da modalidade no Catar.

– Apesar de enfrentarmos desafios únicos como anfitriões, em termos de bloqueio político, nossa ambição de fazer um grande Mundial permanece. Até o momento, assistimos a mais de 80 nacionalidades diferentes no estádio, a grande maioria desfrutando do atletismo pela primeira vez. Os atletas que competem no Estádio Internacional Khalifa e os fãs presentes gostaram da experiência – completou a nota.

A escolha de Doha como sede do Mundial foi polêmica. À época, a cidade desbancou rivais favoritas, como Barcelona, na Espanha, e Eugene, nos Estados Unidos. Todo o processo foi alvo de acusações de corrupção, envolvendo até mesmo o presidente do Paris Saint-Germain. Nasser Al-Khelaifi foi acusado de “corrupção ativa” na investigação relativa às candidaturas de Doha ao Mundial de Atletismo. O processo de candidatura ao Mundial de 2017, quando Doha perdeu para Londres, também foi alvo de acusações.

Maioria dos atletas adota tom político
O baixo público do Mundial de Doha não tem incomodado tanto os grandes nomes do atletismo internacional. Ao menos em entrevistas, as principais estrelas da competição vêm adotando um tom político quando questionadas sobre o tema. Shelly-Ann Fraser-Pryce, campeã dos 100m feminino, foi uma delas.

– Nada tira o brilho da competição. Nós atletas temos que nos focar apenas na pista e eu estou muito feliz de ter vindo a Doha conquistar esse título – comentou a jamaicana.

Christian Coleman, campeão dos 100m masculino, adotou discurso parecido após a conquista do título.

– É claro que ver um estádio cheio é bem bacana, mas isso não vai tirar o brilho da realização de um Mundial aqui – disse o americano.

Francês do decatlo é a exceção
O único nome de peso a criticar a realização do Mundial em Doha foi o francês Kevin Mayer, atual campeão mundial e recordista do decatlo. Além de citar as arquibancadas vazias, o atleta falou ainda sobre a climatização do Estádio Khalifa.

– Nós todos podemos ver que o Mundial é um desastre. Não há ninguém nas arquibancadas, e o calor não foi amenizado. Houve quase 30 desistências na maratona feminina. Isso é triste. É preciso deixar a razão de lado e se concentrar na paixão, porque se não fosse por isso eu teria boicotado este Mundial – atacou o francês.

Jornalistas estranham Mundial vazio
Jornalista esportivo há 15 anos, o jamaicano Andre Lowe, do The Gleaner, demonstrou estranheza com a pouca presença de público em Doha. Cobrindo todos os Mundiais in loco desde Daegu 2011, o profissional, que acompanhou de perto toda a carreira de Usain Bolt, deu a sua opinião sobre o evento, fazendo uma ressalva.

– Com certeza a atmosfera aqui não é tão alegre como em Mundiais passados da perspectiva do público. Desde 2011, quando acompanho o Mundial, com certeza este é o menor público presente no estádio. Apesar disso, tem pequenas sessões com torcedores animados. Na final dos 5.000m, os etíopes fizeram bastante barulho. Os jamaicanos também estavam presentes, como em todo Mundial – contou.

Mark Woods, do britânico The Telegraph, cobriu outros quatro Mundiais de Atletismo presencialmente. Para ele, a questão da pouca presença de público em Doha é cultural.

– Eu não acho que a falta de um grande nome como Usain Bolt impactou na falta de público. Talvez tenha impacto na audiência da TV. Eu acho que a falta de público está ligada ao país. O Catar tem suas questões políticas, é uma nação pequena. Mas eu acho que o esporte em si está enfrentando uma falta de interesse do público – opinou.

Fonte: Globo esporte


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