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“Não tenho 50 dólares”: Norma Dumont relata dificuldades antes de luta principal no UFC

É difícil imaginar que uma lutadora da maior organização de MMA do mundo, na semana de fazer sua primeira luta principal pela organização, passe por dificuldades financeiras sem cometer extravagâncias nos gastos. Mas este é o cenário vivido por Norma Dumont, que vai liderar o UFC Ladd x Dumont, neste sábado, em Las Vegas (EUA). Nos Estados Unidos desde abril, ela chegou a precisar trabalhar com entrega de comida e contou com a ajuda de seu empresário, Alex Davis, para poder se manter no país e seguir sua preparação para o confronto contra Aspen Ladd.

A mineira de 31 anos, que vai para apenas sua quarta luta na companhia, garante que as dificuldades servem para lhe dar força para o combate.

Se te mostrar o que tenho na conta, não tenho 50 dólares. Não é mentira, é verdade. Meu empresário me ajuda muito, senão já teria voltado pro Brasil. Só que isso pra mim não é problema, é combustível. Tenho que fazer meu trabalho – afirmou, em entrevista ao Combate.com.
Norma ainda lembrou que ficou tensa ao saber que Holly Holm estava fora do confronto após a americana alegar uma lesão no joelho. A necessidade de lutar para receber sua bolsa do UFC foi tanta que ela disse que enfrentaria até o campeão peso-pesado Francis Ngannou se fosse necessário. Ela também fez críticas à Holm por ter saído do evento.

Preparação em Las Vegas

Foi uma preparação bem intensa, mas num nível muito bom. A preparação física do PI e a estrutura que eles têm me ajudaram muito. Acredito que estou na melhor performance física sem sombra de dúvidas. Os treinos nos EUA foram muito bons porque treinei com atletas de alto nível. Maioria era do UFC e Bellator. Isso me ajudou muito a evoluir e principalmente a evoluir wrestling, jogo difícil de achar no Brasil e aqui tive acesso ao mais alto nível de wrestling. Estou em Las Vegas desde abril, mudei pra cá. A vida profissional aqui é muito mais fácil. Você consegue ter mais tranquilidade pra trabalhar, você sabe o que está sendo feito e que o que está sendo feito está certo. No Brasil às vezes é quase um chute. Aqui sinto que está correndo bem e principalmente que meu treinador que me acompanha a vida inteira, o Johnny (Vieira), está aqui comigo. Tenho mais atletas pra treinar, versatilidade de atletas, então essa variedade também é muito boa. Profissionalmente falando é melhor.

Primeira luta principal tendo apenas três combates no UFC

– Isso vai de acordo com o que o UFC vê, analisa, obviamente têm atletas com mais lutas que eu, mas às vezes não apresentaram algo tão interessante pra organização, não chamam tanto público. Aqui nos EUA a galera gosta muito do meu trabalho, sou muito bem tratada pelo público. A divisão favorece muito porque não tem muitos movimentos. Venci a Felicia, que é top da divisão, só perdeu pra Amanda e Cris Cyborg, fez um “main event”, então a partir do momento que você começa a se apresentar toda vez que tem uma luta difícil, o UFC cria confiança no atleta. “Ela aceitou estrear contra a Megan (Anderson)”, “Ela aceitou a Felicia com três semanas”, “Ela aceitou lutar contra a Holly”, isso te valoriza com a organização. O atleta que foge de luta ou quer só luta fácil, dificilmente o UFC vai dar a oportunidade. Não é só dentro do cage, é fora também, sua postura,. Vou ficar só pegando p*** aqui, luta dura, não tive luta fácil na organização, e ninguém vai me favorecer? Vou ter nada de positivo com isso? Só me lascar? É o justo, acredito. E se o UFC acha que é válido, vamos

Saída de Holly Holm da luta

– Essa foi uma notícia que me surpreendeu bastante, não esperava que a Holly saísse da luta. Até aí tudo bem. Recebi a notícia quando o Alex (Davis, empresário) me ligou e disse: “Tenho uma boa e uma má notícia”. Aí falou que a Holly saiu da luta. Meu coração gelou. Falei: “F***”. Pra falar pra vocês a verdade, estou lutando pra comer aqui nos EUA. Falei: “Como assim? Investi todo o restante que eu tinha aqui”. Ele disse: “Calma, a Aspen aceitou e entrou no lugar”. Eu pensei: “F***-se, pode vir até o Francis Ngannou, a luta só não pode cair. Não estou nem aí mais” (risos). Foi essa a sensação que tive.
– Depois, claro, dei uma respirada, fui dar uma estudada, já conhecia muito a Ladd e falei: “Essa luta vai ser muito mais legal do que com a Holly”. Claro que a Holly tem um “hype” muito maior, mas ela segura, foge da luta, eu estava inclusive trabalhando a minha cabeça pra ter paciência de esperar a hora certa de encostar na Holly porque é uma luta chata, mais alongada. A Aspen não tem isso. Ela vem pra decidir. Ganha ou perde rápido. Não tem muito o jogo de controlar. É uma luta que fica mais interessante, lá e cá o tempo inteiro, mais aberta. Os golpes entram melhor. Acredito até que pode ser uma luta mais sangrenta, isso é legal pra mim, muito divertido. Tecnicamente acho que é uma luta mais interessante do que com a Holly.

Estilo paciente diante da agressiva Aspen Ladd

– Paciência sempre. Não tenho esse estilo de sair entrando golpeando, sou contragolpeadora, porém, o jogo casa. Esse jogo da Aspen de vir pra dentro golpeando sem parar casa muito bem com contragolpeador. Não tenho problema de estar no raio de ação da luta em tempo integral, mas contra a Holly é difícil porque ela corre muito e aí, quando vai cercar, ela contragolpeia. Tem que saber cercar a Holly pro lado certo, conectar a mão do lado certo, ela te clincha, cozinha a luta na grade, é muito forte, com excelente resistência física. É um pouquinho mais complicada nesse aspecto, não cansa, já lutou várias vezes cinco rounds.

– Não é só estar bem treinado, mas tem que saber controlar cinco rounds. Se gastar tudo nos dois primeiros, já era. Os outros três é coração. A Holly tem isso. A Aspen não tem. Depois da minha derrota aprendi que a paciência dentro do cage é sagrada, necessária, então estarei tranquila, contragolpeando, vou esperar a Aspen soltar o jogo dela, porque ela vem, é o natural dela, então acho que o casamento de luta é interessante

Vantagens de enfrentar Aspen Ladd

– Ela não teve tempo de me estudar, também não tive tempo de estudá-la, mas acredito que meu jogo seja um pouco mais difícil de analisar que o dela, que é mais padrão. Ela tem cinco lutas na organização e o jogo é o mesmo. Talvez ela esteja um pouco melhor, tem dois anos que não luta, mas talvez esteja um pouco mais treinada, mas não acredito que mude o jogo porque é o jeito dela de fazer. Sobre o peso, é muito difícil fazer isso, eu já fiz contra a Felicia, não bati o peso, tentei lutar três semanas depois, bati o peso e fui lutar. Eu senti muitas dores nos órgãos, então senti um problema inclusive no dia da luta, estava com muita dor, não falei nada com ninguém, só meu esposo sabia.

– No aquecimento estava dando uns tapas na região do abdômen pra tirar a sensibilidade, não senti até mais ou menos dois, três minutos do terceiro round, quando voltei a sentir dores fortes. Talvez pelo começo de desgaste. Tive que segurar porque você sabe que não está bem, fica com receio do golpe nem ser tão forte, mas entrar e te machucar. Acho que a Aspen pode trazer isso pra luta, não sei como foi o corte de peso dela, se chegou ao limite, mas acredito que a grande vantagem seja o fato de eu ter treinado para lutar cinco rounds, e ela não. Com relação ao corte de peso, eu também estava mal e venci a Felicia. Não posso falar que ela vai estar assim porque eu estava assim e venci. Não sei a capacidade dela de passar por isso, talvez não seja um problema, mas se a luta se alongar, talvez seja prejudicial pra quem não treinou cinco rounds.

“Lutar para viver”

– Lutar pra viver, sobreviver, pagar meu aluguel, conta. É o que as pessoas às vezes não entendem. Nunca tive uma condição financeira muito boa, sempre foi muito na correria, quem é próximo sabe. Aqui não é diferente. Às vezes as pessoas pensam: “Está no UFC, em Las Vegas, tá nadando em dinheiro”. A gente chegou aqui e fez entrega de comida, agora o Johnny está trabalhando na academia, mas recebe pouco, paga só nosso aluguel. Tenho apoio do PI com suplemento e alimentação, mas é o mínimo. Se te mostrar o que tenho na conta, não tenho 50 dólares. Não é mentira, é verdade. Meu empresário me ajuda muito, senão já teria voltado pro Brasil. Só que isso pra mim não é problema, é combustível. Tenho que fazer meu trabalho.

Postura de Holly Holm

– Fiquei um pouco chateada com a saída da Holly porque foi um pouco de “ah, machuquei, tchau”. Não teve exame, comprovação, nada. Não teve manifesto nem em rede social explicando o que aconteceu e talvez pra essas pessoas não faça tanta diferença porque a vida está estabilizada, mas eu não estou com a vida estabilizada. Eu estou aqui trabalhando pra conseguir me estabilizar. Então quando assino o contrato, eu vou estar na luta. A única coisa que me tira é se tiver lesão grave. Se assinei o contrato, vou estar na luta. Esse é o objetivo. Na última vez que não bati o peso, eu poderia ter falado que passei mal e nem ir lá. Mas isso não passou na minha cabeça. Falei: “Não bati o peso, não tem problema. Vou chegar lá com a cara, queixo erguido, subir na balança e vou lutar”. Porque eu assinei o papel, falei que ia lutar. Não bater o peso já é uma falha, você não lutar é uma falha maior ainda. Você atrapalha, não sabe o que o outro atleta está passando. Se essa luta não acontece, vou fazer o que aqui nos EUA? É um problema muito grande. Talvez a maioria dos americanos não saiba que a gente passe por isso, mas essa é a nossa realidade do Brasil.

Trabalho de entregadora nos EUA

– Quando chegamos, a gente fazia entregas de comida por aplicativos. Treinávamos de manhã, almoçava, fazia treino de tarde e fazia entrega de 6 às 11 da noite, mas ganhava muito pouco, tipo 50 dólares, 60 dólares por dia, pouco. Até que Johnny conseguiu dar aula na academia e deu uma melhorada. Horário mais tranquilo, recebe um pouco mais sem ter que rodar o dia inteiro. Não podemos pensar como “coitado dos atletas brasileiros”, tem que olhar como “quando ela chegar, ninguém vai tirar ela de lá”. Se eu tive que passar por tanta coisa, quando estiver tudo bem, acabou, ninguém me tira do topo. Dessa forma que levo isso.

Voltaria para o Brasil se a luta fosse cancelada?

– Provavelmente meu empresário não deixaria porque ajuda a gente financeiramente quando aperta, quer que a gente fique aqui porque sabe que aqui é bom. Alex está sendo um pai pra mim e pro meu esposo. Tiraria do bolso dele pra manter a gente e depois que lutasse eu devolvia o dinheiro. Geralmente quando aperta a situação, ele me salva direto.

Tempo que consegue se manter nos EUA com o dinheiro da luta de sábado

– É muito relativo porque a gente não sabe. Não é só a luta. Tem a luta, o hype pós-luta, possível patrocínio, um possível casamento de luta rápido… Nesse último ano venho emendando, era pra ter lutado antes, eles vêm gostando das minhas participações e isso é bom. Eu lutando de quatro em quatro meses ou de três em três, vou conseguindo estabilizar. Primeiro você tem os problemas de dinheiro, depois você consegue estabilizar, depois consegue juntar um dinheirinho. Eu lutando com mais frequência, eu preciso trabalhar, preciso lutar. Está sendo ótimo. Tendo uma boa vitória, acredito que não demore pra lutar de novo. Talvez janeiro, fevereiro, e aí as coisas comecem a ficar mais tranquilas.

Atletas do UFC ganham mal?

– Quando eu morava no Brasil, achava que não. Achava que estava bom porque a gente converte. Mas pra quem mora nos EUA é difícil pro atleta se manter porque a gente gasta em dólar. E não é uma coisa mensal, é uma coisa de quatro em quatro meses se você é um atleta frequente. Se você não é frequente, é de seis em seis meses. Se você lesiona, f***, você não sabe quando vai voltar pro cage. Acho que seria legal daqui a um tempo o UFC fazer pelo menos um mínimo, três mil, cinco mil por mês, e aí quando o cara luta, ele ganha o valor que ganha hoje. Aí tudo bem. O cara consegue sobreviver uns meses e quando ganhar o dinheiro da luta, tem de fato um dinheiro que ele ganhou. Talvez na troca de contrato melhore, mas no primeiro contrato do UFC o valor é um pouco baixo. Pra quem está no Brasil, pega o contrato dos atletas e fala que está reclamando de barriga cheia. Vem morar nos EUA que você não dura três meses com o primeiro pagamento do UFC. É a realidade.

Fonte: Globo Esporte


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